19 dez 2012

Colaboração

Mayra Matuck é editora adjunta da revista. Jornalista formada pela PUC, com Especialização em Jornalismo Científico pelo LABJOR (Lab. de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp) e Gestão da Inovação pela Fundação Instituto de Administração (FIA) - USP. Gosta de todo Universo da Ciência, Literatura, Pesquisa, Design e tudo o que possa agregar valor da forma menos obsoleta possível!

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Sobre o controle do comportamento e a produção da subjetividade
medicalizacao

Por Mayra Matuck

E

m “O nascimento da clínica” (1977), Foucault analisa que as práticas fabricam o objeto de estudo na medicina. O discurso médico articulado no campo de atuação e produção científica no contexto de fatores sociais, políticos, econômicos, tecnológicos e pedagógicos que impulsionam a “fabricação” da doença e seu tratamento são entrelinhas das relações de poder. Nesse sentido, ainda segundo o livro, verdades são questionadas e aparecem na produção da subjetividade, tendo como função a monitoração do que escapa à norma.

Renata Guarido é psicanalista e mestre em Psicologia da Educação pela IPUCSP. A entrevista diz respeito ao artigo “A medicalização do sofrimento psíquico: considerações sobre o discurso psiquiátrico e seus efeitos na Educação”, escrito por ela e alguns pontos sobre a nova edição do DSM (Manual de Diagnósticos e Estatísticas dos Transtornos Mentais), obra de referência editada pela American Psychiatric Association. Fica a questão: como tratar o sofrimento de uma forma um pouco mais complexa? Em 1977 Foucault propõe que existe um jogo de forças psíquicas no processo de adoecimento, a nova edição do DSM (Manual de Diagnósticos e Estatísticas dos Transtornos Mentais) está prevista para maio de 2013, cabe-nos tentar uma abstração do significado dos sintomas, sem perder a naturalidade para sofrer.

Na tentativa de nomear cada manifestação humana, perde-se uma dimensão inexplicável da vida, da ordem do humano, que não se transcreve com objetividade. É o oferecimento no mundo de uma opção para cada sofrimento, cada dor. Uma perspectiva de que no mundo dá para aliviar cada sofrimento sem muito trabalho psíquico.  Renata Guarido 

 

Mayra Matuck (MM); Como é feita a avaliação de um transtorno em uma pessoa? 
Renata Guarido (RG); A existência possui dores. Há uma classificação grosseira na prática cotidiana. É o como se tem usado esse tipo de produção. O DSM é produzido a década de 40 mais ou menos. Possui uma tentativa de objetivar os sintomas. Acontece que nessa tentativa, na década de 80, foi decidido que esse manual não deveria admitir nenhum tipo de concepção do sofrimento psíquico, mas reunir um conjunto de sintomas que facilite definir e descrever transtornos. Ele é descritivo. São encontrados conjuntos de sintomas, mais uma orientação para mapear a partir da observação e do discurso da pessoa. O efeito dele na literatura é em relação ao uso. Tem genicologista medicando baseado nesse manual. Uma massa de atuação sem critica.  

MM; O que é o modelo norte-americano?  
 RG; É o DSM. Você descreve e classifica. 

MM; A maneira como a psiquiatria norte-americana avalia as pessoas em clínica é a mesma descrita no manual? Há algum tipo de integração com os pacientes? A senhora sabe algo sobre a maneira de fazer diagnóstico na prática? 
RG;  Não sei como um psiquiatra norte-americano atende. O uso desse manual é o uso clínico. 

MM; A senhora acredita que a maior preocupação dos norte-americanos seja voltada para a indústria farmacêutica?
 RG;  Depende do que você quer dizer com isso… 

MM; Pelo novo esboço sobre o manual, houve um aumento no número de doenças. Cerca de mais 103 novas (um número significativo), se não me engano…, em cima dessas novas doenças, houve mais lucro do que solução. 
 RG; Não tinha esse dado. Mas é provável claro. Cada vez mais existe uma tendência em entender cada uma das manifestações humanas, explicar por um funcionamento neurobiológico cada um dos comportamentos humanos. No DSM IV, há um transtorno chamado “síndrome da perna agitada”, algo do gênero – tô dando um exemplo banal, só para dizer que faz parte da descrição no manual, incluir alguém que agita uma perna, dentro de um manual de diagnóstico de transtornos mentais. A perna agitada importa pouco, o que importa é o que se quer dizer como discurso.

“A felicidade é o motivo principal do desejo humano. Mas de forma rápida, sem dor e com sucesso – uma atitude de consumo” Renata Guarido

MM;  O que você pensa sobre isso? 
 RG; Um exagero aí. Uma tentativa de nomear cada manifestação humana, e perde-se uma dimensão inexplicável da vida, da ordem do humano, que não se transcreve com objetividade. É o oferecimento no mundo de opção para cada sofrimento, cada dor. Uma perspectiva de que no mundo dá para aliviar cada sofrimento sem muito trabalho psíquico. A minha ideia é que as pessoas possam tratar da dor de uma maneira um pouco mais complexa. Algumas coisas envolvem uma questão orgânica. Em crianças, o efeito disso é muito devastador. Você mencionou a indústria farmacêutica. Ela faz uso do tipo de proporção que a descrição objetiva tem, de certa forma, ela é parceira desse discurso, pelas propagandas, há uma insinuação de que não se vende medicamentos, mas sorrisos – e o que isso quer dizer?

MM; O bem estar mental é segundo plano perante o fim comercial. Por outra ótica, é possível interpretar isso como uma maneira de produzir sofrimento, mesmo que seja compreensível “o querer ganhar dinheiro”, pois todos queremos, mas penso que na área da saúde, isso é um tanto gritante. Esbarra em questões éticas.  
 RG;  Não sei se as pessoas se dão conta disso. Esse tipo de leitura atende um certo desejo humano de que as coisas tenham solução rápida e fácil. A felicidade é o motivo principal do desejo. E lidar com a vida é mais do que isso. O motor é querer isso como atitude de consumo. Os remédios são vendidos como qualquer outro produto, como se vende um carro. O remédio é objeto de consumo. Não dá para dizer que a indústria farmacêutica se vale do sofrimento do outro, dá para dizer que ela se vale de um discurso que entende o sofrimento de modo classificatório e objetivado, e que isso propicia o espaço que os medicamentos possuem. Temos por efeito, pessoas cada vez mais medicadas, uma demanda por ‘me dá um remédio, por favor’, como é produzido esse tipo de pedido? Eu não se as pessoas entendem isso como “tão usando meu sofrimento”. Não está claro que o sofrimento tem a ver com a vida. 

MM;  Um ponto importante em questão é distinguir um sofrimento da vida de um sofrimento orgânico… 
 RG; As pessoas tomam o sofrimento como uma doença: “ah, quando soube que tinha uma depressão foi um alivio… foi um alivio saber que sou bipolar – isso justifica tudo”. 

MM; Como que é possível, se é que é possível, criar uma consciência… Quais são os alicerces que fazem com que vocês interpretem o que é recomendado como medicação. Como fica trabalhado esse limite?  
 RG;  Isso é como classificar. Temos uma maneira atual habitada por esse discurso, e não dá para negar. Temos de lidar com essa questão no mundo. Qual é a nossa ideia de enfrentar a vida? O remédio é um dos elementos disso. Por isso acho difícil falar desse limite. 

“A publicidade pode ser descrita como a ciência de prender a inteligência humana o tempo suficiente para lhe arrancar algum dinheiro” Stephen Leacock

Veja o artigo “A medicalização do sofrimento psíquico”

Mayra Matuck Sarak
São Paulo, SP
VIA: Cinapce e Autópsia Review

Mayra Sarak é editora do site e jornalista formada pela PUC-SP, trabalha com pesquisa na área de inovação, editoração e Direito. É apaixonada por ciência, design e literatura.

Licença Creative Commons
O trabalho Sobre o controle do comportamento e a produção da subjetividade de Mayra Matuck Sarak está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.
Baseado no trabalho disponível emwww.autopsiareview.org.
Podem estar disponíveis autorizações adicionais às concedidas no âmbito desta licença em Mayra Sarak

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