“Quase li um Kafka”
16 nov 2014

Colaboração

João Luiz Marques é jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero, cursou Filosofia na USP, extensão universitária em Jornalismo Cultural na PUC-SP e Jornalismo Literário no Sindicato dos Jornalistas. Trabalha com assessoria de imprensa para editoras de livros e mantém o blog do Le-Heitor, de incentivo à leitura. Heitor é o personagem que escreve nesse blog, seu heterônimo é um menino de 12 anos que gosta de ler e de contar histórias.

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Imagem: by Natt S. – membro do Flickr
adaptada do link: http://blog-ladycuriosa.blogspot.com.br/2013/03/bonecas-blythe.html

Por menino Heitor (*)

Na semana passada um amiguinho me falou:

– Heitor, você vai ler um Kafka! Parecia uma ameaça. Fiquei com medo e perguntei:

– Isso é perigoso? Quem é esse Kafka? Ele riu e me acalmou:

– Não tem perigo, nenhum, Heitor. E me falou um pouco dele: “Kafka é considerado um escritor complexo e os seus personagens sofrem de conflitos existenciais. Ele nasceu na cidade de Praga em 1883 e morreu em 1924, vitima da tuberculose, aos 41 anos, em um sanatório perto de Viena. A maior parte de sua obra foi publicada depois da sua morte. No mundo kafkaniano os personagens não entendem o sentido de suas vidas e sempre estão em confronto com o poder das instituições. Suas histórias mostram o tamanho da impotência e da fragilidade do ser humano”.

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Imagem: Rex Features

– Eu estou achando perigoso, sim, ler esse Kafka, eu disse, zoando com ele.

– Na verdade, Heitor, você vai ler um livro que conta uma história que aconteceu com o Kafka, um ano antes de sua morte. Essa história foi contada por Dora Dymant, sua mulher nessa época. Vou mandar o livro para você. Você vai gostar!

Recebi o livro em casa. Ele se chama Kafka e a boneca viajante, foi escrito pelo espanhol Jordi Sierra i Fabra, tem ilustrações de Pep Montserrat, e foi publicado no Brasil em 2008 pela editora Martins Martins Fontes. O livro é maravilhoso! A história é emocionante. Quem não leu, precisa ler.

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Era o início do verão de 1923, Kafka morava em Berlin e ia todas as manhã ao parque Steglitz. A paz e o silêncio desse parque faziam bem à sua saúde. Um dia ele estava no parque e ouviu o choro alto de uma menina, que estava muito perto dele. “Ela chorava em pé, desconsolada, tão angustiada que parecia trazer no rosto toda a dor e a aflição do mundo”. “Franz Kafka olhou para um lado e para o outro. Ninguém notava a menina. Estava sozinha”. Ele não sabia o que fazer. Se conversava com ela ou simplesmente ia embora. Ele nunca tinha ouvido alguém chorar daquele jeito.

Kafka pensou muito e decidiu falar com a menina:

– Olá. O que aconteceu? Você se perdeu?

– Eu não, ela respondeu.

– Quer dizer que você não se perdeu.

– Eu não, já disse.

– Quem então?

– Minha boneca, respondeu a menina.

– Sua boneca?

– É.

A menina chorava e parecia sofrer muito. “Eram as lágrimas mais sinceras e dolorosas que já tinha visto. Lágrimas de uma angústia suprema e de uma tristeza insondável”. Ele não sabia o que dizer à menina. Então perguntou:

– Onde você a viu pela última vez?

– Naquele banco.

– E você onde estava?

– Estava brincando.

– E ficou lá muito tempo?

– Não sei.

Ele pensou e descobriu uma solução simples para a sua mente criativa de escritor…

– Espere um pouco, que bobagem a minha! Qual o nome da sua boneca?

– Brígida.

– Brígida, claro! E soltou uma risada para convencer a menina.

– É ela, lógico! Desculpe, não me lembrava do nome! Às vezes sou tão avoado! Com tanto trabalho! A menina arregalou os olhos.

– Sua boneca não se perdeu. Ela foi viajar.

– Viajar?

– Isso mesmo! Qual é o seu nome?

– Elsi.

– Elsi, claro! Lógico que era a sua boneca, porque a carta era para você.

– Que carta?

– A que ela escreveu, explicando por que foi embora tão de repente. Kafka disse a menina que, na pressa, tinha deixado a carta em sua casa, mas que lhe entregaria no dia seguinte.

– Sou um carteiro de bonecas.

Assim que a menina saiu da praça e voltou para casa, Kafka percebeu que acabava de se meter numa tremenda confusão. Precisava escrever aquela carta. Com criança não se brinca, ele pensou: sem aquela carta, Elsi cresceria com o pior dos traumas: o de ser abandonada por sua boneca. Era escritor, mas nunca havia escrito uma carta de uma boneca viajante para a menina que fora sua dona até o momento da separação.

Kafka foi para casa, se trancou em seu escritório e escreveu a carta. No dia seguinte, no horário combinado, levou a carta para menina. Elsi olhou o envelope, virou e viu o remetente: “Brígida. West End. Londres”. Não faltou nem o selo!

Kafka leu a carta para a menina. Nessa carta a boneca explicava as razões de sair tão de repente sem se despedir. As despedidas são tristes e ela não queria ver Elsi chorar. Disse que a amava. Que as pessoas e as bonecas são feitas de sentimentos e emoções e que é preciso ir usando aos poucos. Disse também que depois de viver esses anos ao lado da menina, ela se sentia a boneca mais feliz do mundo. Mas que agora ela se preparava para inicar uma nova vida. Falou dos lugares que conheceu em Londres: o Picadilly Circus, passeio de barco pelo Tâmisa, caminhada pela Trafalgar Square e ainda assisitu, à noite, a uma peça de teatro no Soho.

Esse é só o começo da história do livro. Depois disso a boneca da menina foi à Paris, Viena, Veneza, Moscou, seguiu para a Espanha, Grécia, Hungria, cruzou o mar e foi à Africa, à Asia, à America do Norte e do Sul. Também cruzou o deserto do Saara, explorou a Índia, percorreu a muralha da China, nadou no mar Morto, escalou os picos do Himalaia. Esteve em Pequim, em Tóquio, em Nova York, em Bogotá, no México, em Havana, em Hong Kong. Pulava de um continente ao outro num abrir e fechar de olhos.

E nesse tempo, Kafka escreveu uma carta por dia. Mas isso não poderia durar a vida toda ou toda a infância da menina. Kafka tinha que dar um fim para essa história. Mas só lendo o livro para saber que fim o escritor deu para a história da boneca viajante…

Tem uma parte do livro em que a mãe de Elsi, curiosa pelas histórias contadas pela filha, lê as cartas, segue a menina e vai conversar com o carteiro de bonecas, Franz Kafka. Esse trecho do livro é muito emocionannte. Diz que Kafka chorou nesse encontro com a mãe de Elsi. Eu também chorei.

 

* Menino Heitor
São Paulo, SP
VIA: Blog do Le-Heitor

meninojoao

João Luiz Marques é jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero, cursou Filosofia na USP, extensão universitária em Jornalismo Cultural na PUC-SP e Jornalismo Literário no Sindicato dos Jornalistas. Trabalha com assessoria de imprensa para editoras de livros e mantém o blog do Le-Heitor, de incentivo à leitura.  Heitor é o personagem que escreve nesse blog, seu heterônimo é um menino de 12 anos que gosta de ler e de contar histórias.

Licença Creative Commons
O trabalho “Quase li um Kafka” de João Luiz Marquesestá licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.
Baseado no trabalho disponível emhttp://blogdoleheitor.sintaxe.com.br/.
Podem estar disponíveis autorizações adicionais às concedidas no âmbito desta licença emhttp://blogdoleheitor.sintaxe.com.br/

1 Comment
1 Comments
  1. fiquei com vontade de ler… vou procurar esse livro!
    Antônia.

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