07 set 2014

Colaboração

Psicólogo formado pela USF, mestre em Psicologia Profunda com ênfase em estudos Jungianos e Arquetípicos pela Pacifica Graduate Institute, USA. Junto ao trabalho clínico na cidade de Campinas, cresce cada dia mais a vontade de aproximar as ideias da psicologia profunda (aquela começada por Freud e Jung) de outras diversas formas de expressão humanas em prol de um projeto de educação psíquica.

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Os Filhos da Revolução: As Raízes Arquetípicas Brasileiras e o movimento Punk-Rock de Renato Russo
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Imagem: Bruno Comotti – ilustrador e membro do Flickr

Por Camilo Francisco Ghorayeb

A

o tentar aprofundar a análise das questões culturais brasileiras atuais, deparei-me com o documentário Rock Brasília – Era de Ouro de Vladimir Carvalho. O filme contava, dentre outras, a história da Legião Urbana, considerada a mais adorada banda de rock do país até os dias atuais, e fazia um relato do show mais importante que deram em Brasília, sua cidade natal, pela primeira vez após atingirem grande sucesso no país. Neste relato, o jornalista Carlos Marcelo, biógrafo do cantor Renato Russo, descrevia o evento como um presente que Renato queria dar à cidade, seria o show de sua vida. Porém, também segundo Marcelo, o que aconteceria antes, durante e depois do show não se aproximaria em nada ao momento de celebração antes desejado:

Eu lembro que eu estava chegando pro show, já no chão, no asfalto do Eixão, muito vidro estilhaçado, ou seja, os ônibus que já tinham chegado já tinham sido também vítimas de vandalismo. Por vários fatores, eu acho que . . . a própria experiência do Badernaço era uma referência pras pessoas, porque a divulgação, a propagação do Badernaço mostrou que a cidade sabia fazer barulho e também podia ser, em alguns momentos, incontrolável. Então os protestos do Badernaço acabam ecoando no show do Mané Garrincha, porque o quebra-quebra é muito semelhante ao que tinha acontecido na própria rodoviária do Plano Piloto, naquele protesto contra o governo Sarney, e quando isso acontece, a gente está falando de horas antes do show, há também um grande tumulto na entrada do estádio . . . quando a gente entra no estádio, a gente percebe que o clima de tensão continua, porque a polícia utiliza cães, Pastores Alemães, para também tentar, de certa forma, colocar uma ordem nessa atmosfera conflagrada de tensão. Faixas de protestos contra o governo Sarney foram rasgadas e o atraso pro início do show por conta do tumulto do lado de fora, porque muita gente não tinha conseguido entrar . . . então havia milhares de pessoas que ainda não tinham conseguido entrar, sendo que já havia milhares de pessoas dentro do estádio . . . tudo isso causou um clima de tensão muito forte. Quando a banda sobe ao palco, as primeiras palavras do Renato pra plateia são “Boa noite Brasília, a gente está aqui pra se divertir, não é? Legal!” Mas, o repertório, muitas das músicas eram pesadas, pesadas não só na sonoridade como nas letras. Essas músicas têm uma carga de contestação muito forte. Essas músicas refletem a adolescência do Renato e da sua turma em Brasília. Então, por mais que elas estavam sendo cantadas naquele momento por um Renato quase trintão, ao serem apresentadas pra milhares de pessoas, mais de 30000 pessoas naquele momento, era quase que um acerto de contas do próprio Renato com o próprio passado. Era como se ele estivesse voltando aos tempos de Aborto Elétrico, sabe, era como se ele estivesse voltando àquela Brasília silenciada, àquela Brasília controlada pelos militares de 1978, quando aquelas músicas nasceram. Então, o Renato quando mostra, de novo, pra cidade aquelas músicas naquele contexto ele, de certa forma, fecha o seu ciclo, e isso tem um preço. Ele, no show, faz essa sequência, uma pessoa que vai consumindo drogas, “primeiro consumiu maconha, depois passou pra cocaína, depois tomou ácido,” e a plateia reagindo de uma forma bem entusiasmada às menções das drogas, e aí, depois que ele enumera algumas drogas, no final ele fala “e aí ele ficou assim, ó!” e aí ele faz um gesto de quem ficou, assim, debilitado mentalmente por causa do excesso do consumo de drogas, e aí a plateia, novamente, toma uma rasteira. Minutos depois desta descrição do que acontece com uma pessoa que usa drogas, o Renato é agredido por um fã. O Renato percebe que os seguranças estão batendo num fã que tentou invadir o palco, tentou ultrapassar a margem de segurança, e o Renato passa a falar diretamente com os seguranças. Então o Renato, naquele momento, perde a adesão dos seguranças também, e o público, obviamente, também se divide e passa a partir pro confronto com o segurança, a forçar uma entrada. Talvez tenha sido aí o grande erro de avaliação do Renato no show do Mané Garrincha, era impossível fazer um pacto de cumplicidade com 40000 pessoas ao mesmo tempo. O que pra alguns era entendido como uma ironia benvinda, como uma crítica, pra muitos era entendido como uma afronta. Com o passar dos minutos, acho que o Renato vai percebendo o quão grave foi aquilo, a agressão que ele sofreu durante o show, e aí ele vai ficando cada vez mais tenso e suas próprias reações já não são mais tão brincalhonas. E pra piorar as coisas, no dia seguinte, em frente ao bloco do Renato aparece uma pichação na parede do posto de gasolina “Legião, não voltem mais.” E acho que das coisas que aconteceram depois do show, talvez essa tenha sido a que mais tenha magoado Renato.

 

A Legião Urbana era seguida por uma multidão de fãs, e este era um show histórico que marcava a volta à Brasília. Se isto era verdade, porque, então, o show havia sido um desastre? Que condições a história de Renato Russo, Brasília e do próprio país carregavam para que, segundo Marcelo, o show representasse um ponto de confluência e implosão? Como uma banda tão popular, que havia se rebelado e representado os sentimentos da juventude da sua época estava, agora, sendo atacada violentamente pela mesma juventude? Na tentativa de criar uma narrativa possível (ainda que não única), incluindo a história de Renato Russo e o movimento punk-rock de Brasília à história imaginal do país—aos complexos culturais que carrega inconscientemente—tento aqui responder a estas perguntas.

De certa forma, este grupo de jovens liderados por Renato foram os primeiros filhos que cresceram na capital que se tornaria emblemática da condição psíquica do Brasil, tanto pela forma que esta capital veio a existir, quanto por que logo após sua criação foi tomada pelos militares e, então, iniciou-se no Brasil a ditadura.

 

Mas o que aconteceu foi mais do que simplesmente um show que não deu certo. Se Brasília tinha sua importância simbólica na história da construção do Brasil e do brasileiro, era necessário, então, tentar voltar às razões que culminaram na construção da nova capital. Talvez assim, fosse possível tatear alguns aspectos psíquicos dos quais ela estaria carregada e que, naturalmente, também a ligava às capitais brasileiras anteriores, uma vez que a primeira as havia substituído. Tudo dentro da idéia de que uma narrativa tem a liberdade de ser, ao mesmo tempo, tão inventada quanto real (o que, aparentemente, nunca deixa de ser), e na medida em que torna-se tão significativa quanto promovedora de consciência (pois, do contrário, para que serviria?). A pergunta que ressoava, portanto, era, como chegamos até Brasília? Qual a história das capitais brasileiras e o que ela nos diz? E como manter um olhar da psicologia profundade Carl Gustav Jung, da psicologia arquetípica para compreendê-la?

Antes de seguir, vale parar por alguns instantes e rever duas definições de palavras que muito serão usadas neste trabalho, à saber, arquétipos e complexos. Para Jung, os arquétipos são modos de percepção de nossa psique, como se fossem moldes por onde nossas experiências passam e, como resultado, ganham certas perspectivas psicológicas, tendências inconscientes em experimentar acontecimentos de uma forma ou de outra. Estas perspectivas, diz o psiquiatra, são herança de toda uma construção cultural humana.

 

Rock Brasília Era do Ouro


(referência para esse texto: do tempo 1:16 – 1:26:24)

 

 

São como instintos, respostas automáticas que carregamos, porém carregadas de afeto, significado, imagens, pois seriam como instintos culturalizados. Neste sentido, arquétipos estão sempre presentes influenciando nossas percepções e, assim como num indivíduo, também podem estar presentes numa nação. Há também o que pode-se chamar de uma certa condição, um estado, em que arquétipos se encontram e que, então, seriam considerados complexos.

Nesta condição, arquétipos estão sensibilizados, “constelados,” como se diz, de forma a gerar uma grande carga emocional. Os complexos, portanto, seriam a maneira específica em que estes modos de percepção apresentam-se em um indivíduo ou, mais uma vez, no caso deste trabalho, numa nação; as popularmente conhecidas “questões” que, quando tocadas, nos mobilizam de forma reativa. Arquétipos e complexos, portanto, parecem falar de conteúdo e forma, do que temos e como temos, assim como também levam a crer que somente a consciência serve como saída para não ficarmos eternamente mobilizados.

 

Renato Russo

Imagem: www.capasface.com.br

 

Numa de suas mais célebres mensagens, Jung já indicava que, na vida psíquica, o que não se torna consciente, acaba por tornar-se destino

De volta às capitais, também dentro dos conceitos sugeridos por esta abordagem psicológica, a definição do chamado ego parece manter um paralelo com a definição da capital de uma nação, oferecendo-se como primeiro personagem importante desta história. Segundo o conhecido Junguiano Edward Whitmont, o ego “funciona como um centro, o sujeito e objeto da identidade pessoal e da consciência, isto é, a consciência da identidade pessoal que se estende e continua através de uma sequência de tempo, espaço, causa e efeito, que permite refletir sobre si mesmo . . . ele é o centro e o agente causador, ao menos aparentemente, de planos de ação, decisões e escolhas pessoais, e um ponto de referência para o julgamento de valor. É o agente causador dos impulsos pessoais, o desejo que traduz as decisões em ações voltadas para fins específicos.” Capitais, portanto, parecem carregar funções que estão perto o suficiente para uma inclusão imaginária como uma parte egóica de uma nação. É o lugar onde os planos de ações e decisões são tomados, e onde também há juízo de valor e uma reflexão sobre si mesmo, bem como um centro que pretende construir uma identidade ao longo do tempo e do espaço, entre outros aspectos.

A partir deste paralelo torna-se possível narrar arquetipicamente a história das capitais do Brasil. Podemos, por meio das condições em que estavam, e pelas razões usadas na escolha destes centros, imaginar o que eles poderiam dizer sobre a condição do ego da nação, ou como este ego foi visto e cuidado, da mesma forma que pode-se começar a tatear os nós psíquicos de alguém ao perceber como estes se manifestam pela relação consciente com o mundo e si mesmo.

 

Como referência para imaginar tal condição, as contribuições do psicanalista Donald Woods Winnicott serão de extrema valia. Winnicot, que escreveu extensivamente sobre os cuidados na infância, crescimento e um possível desenvolvimento saudável de um ego infantil em seu livro Ambiente e os Processos de Maturação, afirma que “muitas pessoas se tornam capazes de desfrutar a solidão antes de sair da infância, e podem mesmo valorizar a solidão como sua possessão mais preciosa.” O autor sugere que esta capacidade é um dos sinais mais importantes de maturação e desenvolvimento emocional.

Mas tal condição depende de quão bem alguém, especialmente durante a infância, paradoxalmente consegue estar sozinho na presença de sua mãe. Em suas palavras “aqui está implícito um tipo muito especial de relação, aquela entre o lactante ou a criança pequena que está só, e a mãe ou uma substituta que está de fato confiantemente presente, ainda que representada por um momento, por um berço ou um carrinho de bebê, ou pela atmosfera geral do ambiente próximo. Winnicott segue afirmando que “a relação do indivíduo com este objeto, junto com a confiança com relação às relações internas lhe dá autossuficiência para viver, de modo que ele ou ela fica temporariamente capaz de descansar contente, mesmo na ausência de objetos ou estímulos externos.” E numa de suas frases mais importantes, continua, “maturidade e capacidade de ficar só significam que o indivíduo teve oportunidade através da maternidade suficientemente boa, de construir uma crença num ambiente benigno. Estar só na presença de alguém pode ocorrer num estágio bem precoce, quando a imaturidade do ego é naturalmente compensada pelo apoio do ego da mãe. À medida em que o tempo passa, o indivíduo introjeta o ego auxiliar da mãe e dessa maneira torna-se capaz de ficar só sem o apoio frequente da mãe ou de um símbolo da mãe. Nesse sentido” diz o autor, “estou tentando justificar o paradoxo de que a capacidade de ficar só baseia-se na experiência de estar só na presença de alguém, e que sem uma suficiência dessa experiência a capacidade de ficar só não pode ser desenvolver.”

 

Apesar de não ser um Junguiano, uma conexão entre o seu trabalho e a idéia junguiana do arquétipo da grande mãe foi feita, particularmente no que diz respeito ao conceito de “mãe suficientemente boa.” De acordo com a Junguiana Salman Sherry, em muitos aspectos a formulação da “mãe suficientemente boa” de Winnicott tem relação com a formulação de Jung do arquétipo mãe: A mãe suficientemente boa é aquela que é capaz de satisfazer e mediar a imagem arquetípica da criança. Ela só precisa ser “boa o suficiente” para fazê-lo.

Se a mãe suficientemente boa de Winnicott poderia estar mais relacionada ao arquétipo da mãe, em outras palavras, à uma imagem cultural ou símbolo coletivo materno, pode-se pensar, então, que as mesmas condições desta relação arquetípica mãe-filho deveriam estar presentes na construção de qualquer ego maduro, até mesmo tratando-se de um país como o Brasil. E é nos relatos do início de nosso país, do primeiro momento em que talvez o primeiro brasileiro tomou forma, imaginalmente nasceu, onde encontramos as imagens que necessitamos para o olhar arquetípico e a compreensão do tipo de ego que podemos ter desenvolvido.

 

Segundo o sociólogo e antropólogo Gylberto Braga, “o  ambiente em que começou a vida brasileira foi de quase intoxicação sexual . . . as mulheres eram as primeiras a se entregarem aos homens brancos, as mais ardentes indo esfregar-se nas pernas desses que, supunham deuses.” O que se seguiu desse encontro aparentemente fortuito foi uma dissociação crescente de um estado de integração e identidade a tal ponto que acabaria por criar o que o sociólogo Roberto Gambini chamaria de “o drama que cada brasileiro carrega em um nível mais coletivo,” uma idéia introjetada de que a existência do Brasil e dos brasileiros foi puramente um acidente. Essa idéia também perpetuou a noção de que esta era terra de ninguém e poderia ser usada e abusada à vontade, ainda que, na verdade, tenha estado habitada nos trinta mil anos anteriores. Gambini também afirmou que este é o drama no qual o primeiro brasileiro nasce, o do “órfão híbrido,” filhos e filhas dos conquistadores que os abandonaram, deixando também as índias, mães destes primeiros brasileiros, sem um grupo social, uma vez que foram expulsas de suas tribos. Mais adiante, Gambini diz que até mesmo o corte do Pau Brasil “é o grande símbolo do início de nossa história. O desfalque e o ataque à natureza são nossos sinais de batismo, assim como o é também a posse da mulher índia pelo branco invasor.” E continua, afirmando que estes invasores viviam “aventuras fálicas . . . regidas exclusivamente pelo princípio fálico de penetrar no desconhecido, penetrar e gozá-lo, apossando-se do que estivesse ao alcance da mão. As mulheres portuguesas foram deixadas em casa como enlutadas viúvas de vivos . . . essas mulheres viviam sob os rígidos cânones morais e comportamentais . . . quando marinheiros abstinentes à força . . . lançam o olhar sobre as índias, cuja beleza física já vem retratada na carta de Pero Vaz de Caminha, . . . eles dão-se imediatamente conta de que ali, naquele paraíso meridional, sua luxúria não só era permitida e incentivada, mas também encorajada pela maior autoridade máxima do próprio sistema no qual se inscrevia seu código moral. Pois não havia, o Papa Alexandre VI, pontificado que não existia pecado ao sul do Equador?” Uma força verdadeiramente segregacionista que deixou cicatrizes físicas e emocionais, cindindo identidade e existência, especialmente por meio do consequente abandono das mulheres indígenas e de sua tradição, deixadas ao seu próprio destino.

Assim, a história brasileira começa com pelo menos um complexo muito forte, à saber, o do órfão que, como consequência, parece nunca possibilitar uma integração suficiente de uma identidade, como se após o abandono, o ego brasileiro não tivesse sido criado num ambiente maternal confortável o suficiente que oferecesse um caminho para a maturidade. Aqui é preciso fazer uma pausa para observar que a narrativa deste trabalho segue, propositadamente, o aspecto mais negativo desta condição inicial. A idéia é atentar-se à sombra, aos aspectos problemáticos inconscientes que levarão até Brasília, Renato Russo e a trágica apresentação da Legião Urbana. Muitos autores usaram este mesmo relato para celebrar a colorida miscigenação brasileira, seu caos criativo, a alma leve, gentil e espontânea, a sempre presente capacidade de improviso junto à flexibilidade e multiplicidade macunaímica que também tivemos como consequência. Mas esta é uma tentativa de trazer o outro lado, especialmente pela importância deste lado para os dias atuais. Também não se pode esquecer que nosso país foi sempre mais autoidentificado e reconhecido por estrangeiros como o lugar da alegria, dança e descontração, o que parece demonstrar uma tendência a fixar-se somente no resultado positivo, deixando a sombra com os aspectos negativos de quais falo aqui.

Voltando à mesma, se a psique do país forma uma certa idéia de que a sua própria existência é acidental, pode haver a impressão, assim como uma mãe quando engravida acidentalmente pode sentir, que é uma criança ou existência indesejada. Este aspecto particular do complexo é facilmente visto entre os brasileiros quando se trata do comum sentimento de inferioridade presente, como mostrado pela psicóloga brasileira Denise Ramos em sua tentativa de lançar luz sobre o fato do Brasil ainda ser um dos países mais corruptos no mundo. Ela diz: “É comum entre as classes média e alta em São Paulo. . . e, provavelmente, entre as classes média e alta brasileiras em outras cidades, observar o uso constante de adjetivos pejorativos ao se referir à sua própria nacionalidade. Piadas e exemplos de brasileiros denegrindo a sua própria imagem são facilmente encontrados na televisão brasileira e também podem ser ouvido em expressões utilizadas pelo povo brasileiro todos os dias. As comparações estão sendo feitas constantemente com pessoas do “primeiro mundo,” com os brasileiros retratando-se como incompetentes, ignorantes, arrogantes e corruptos.”

No mesmo estudo, Ramos ressalta que os estrangeiros tendem a ver brasileiros ou o Brasil de forma mais positiva, mas também reconhecem um sentimento existente de autorejeição ou baixa autoestima, ao que eu poderia acrescentar que, às vezes, pode ser ligado a uma grande, talvez até mesmo violenta superidentificação com as qualidades do país e de nossa cultura. Embora a autora não tenha relacionado essas reações contraditórias a um complexo de abandono, não seria muito difícil colocá-las ambas como consequências opostas do mesmo complexo. Otimismo e pessimismo extremos andando de mãos dadas, gerando confiança e desesperança, sintomas que são atuados, nos deixando cegos e nunca permitindo que a cultura chegue ao cerne do problema. Olhando por estas lentes, pode-se até pensar na corrupção, que parece estar ligada às condições e sintomas relacionados à orfandade e ao abandono, não somente como um sinal de baixa autoestima, mas algo que ainda representa a própria corrupção concreta inicial da terra brasileira e suas mães. Neste sentido, brasileiros teriam nascido mais pecadores do que a maior nação católica do mundo (que, ironicamente, e reforçando o complexo é, de fato, o Brasil), pois nascem de uma mãe corrompida em uma terra corrompida e, portanto, podem assumir a corrupção como a condição mais palpável e comum de existência. Assim, o Brasil, criado numa família corrompida, não tendo desenvolvido a capacidade de estar só com a “crença de um ambiente benigno” (há quantos anos brasileiros convivem com mais e mais relatos de insegurança e violência diária, onde o ambiente é, na verdade, maligno),  é deixado com um ego que parece estar sempre em busca de um assentamento, ou uma identidade.

Mas de volta à ideia das capitais como centros egóicos que podem arquetipicamente oferecer imagens de como o “menino Brasil” estava sendo cuidado, vejamos possíveis resultados. Em 1549 , apenas 49 anos após a descoberta do país, Salvador é escolhida para ser a capital por razões meramente práticas que beneficiam os recém-chegados. Tem um porto seguro, que os exploradores podem usar para entrar e sair quando quiserem, e toda sua riqueza natural disponível ao redor. Sendo a primeira manifestação de um ego do país, pode-se dizer que a chance deste  amadurecer está escravizada e, junto com ele a identidade da nação. Na verdade, não há nenhuma intenção de ter qualquer tipo de organização que sirva ao país neste momento. Tudo que se torna um pouco mais organizado é para benefício dos exploradores, e assim, a imagem que parece ficar é de tão pouco cuidado e consideração que é incapaz de permitir que potencialidades tornem-se reais. O arquétipo da criança do país não está apenas abandonado, mas também usado e manipulado sem qualquer tipo de ambiente maternal benéfico ou suficientemente bom. Parece o início do que viria a se tornar uma autoflagelação, como resultado de um sentimento corrompido do amor próprio.

 

Em 1960, o Brasil toma sua primeira atitude para sustentar-se com as próprias pernas. Com um ambicioso plano de desenvolvimento econômico, especialmente priorizando a industrialização (energia e transporte) a educação, a redução da desigualdade social e da exclusão, o presidente Juscelino Kubitschek constrói uma nova capital no que parece ser o local mais próximo da área central do país. A intenção é também ir mais fundo para dentro, preencher o interior. A autoidentidade brasileira é levada a um novo núcleo que parece promissor, desta vez escolhido por um filho brasileiro. Mas a nova capital, Brasília, está longe de ser a solução final. Ela é construída como parte do programa para modernizar o Brasil 50 anos em cinco, uma idéia presunçosa que, através das lentes imaginais que este trabalho está usando, parece se assemelhar a uma reação extrema à identidade instável anterior, como se quisesse criar uma à força e recuperando o tempo perdido. Algum tipo de força, aliás, já parecia dar sinais de ameaça ao ego por meio de movimentos militares iminentes.

 

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Imagem do documentário Rock Brasília Era do Ouro

Depois de Salvador, a capital é transferida para o Rio de Janeiro em 1763, onde, mais tarde, um fato importante ocorre, à saber, a vinda da família real Portuguesa para o Brasil. Esse fato por si só poderia representar um primeiro momento benéfico para o desenvolvimento do Brasil, pois pode ser comparado à realização do sonho de uma criança bastarda que vive o retorno do pai. Ele também leva a chance do país crescer para um outro nível. Rio é a maior cidade do país, e é completamente modificada, melhorada, para a chegada dos Portugueses. Esse é o momento em que o Brasil parece ter tomado uma forma melhor, e está se tornando aquele que, em realidade, pode ser. Mas não é por amor e culpa que a família real vem ver e viver com seu filho bastardo, se Salvador ofereceu o controle sobre a produção de cana-de- açúcar no norte do país, o Rio de Janeiro, da mesma forma, oferecia controle sobre a possível extração de metais valiosos recentemente descobertos, especialmente o ouro, pois está localizada perto de Minas Gerais.

Assim, se por um lado a criança, vendo o pai se aproximando mais uma vez, sentiu-se mais forte e confiante, por outro, ela também seguiu desejando um amor que ainda não teria. O Brasil ainda carecia de uma mãe suficientemente boa, mas agora usava boas roupas, ia para boas escolas e, talvez, imaginava, iludido, que o cuidado que sempre precisara havia finalmente chegado. Durante esse período, o filho do rei Português, enquanto vivia no Brasil, decidiu ficar no país para defender a sua autonomia política declarando sua independência. Em certa medida, pode-se imaginar que o complexo do órfão parece se repetir enquanto a história brasileira não consegue deixar de ser escrita e contada sem o uso das palavras “filho” ou “crianças,” muitas vezes vistas como forças de oposição em relacionamentos estressantes. É o ato final de separação, liberando a identidade do país das expectativas com a família que o abandonou, mas ainda só sendo possível por meio de um membro desta própria família.

Quando a construção de Brasília termina, conhecidos pensadores de diferentes áreas são convidados para uma visita; suas impressões são das mais perturbadoras. O autor Aldous Huxley diz ao sociólogo brasileiro Gilberto Freyre que achava que “uma nova cidade é um problema da vida e, portanto, para a antropologia, a sociologia e a biologia. De modo algum, um problema apensas da arquitetura.” Ao que Gilberto responde, “talvez Brasília esteja reproduzindo um conjunto teatral ou cenográfico de edifícios sem raízes biológicas ou articulações sociológicas.” A mesma impressão teve Simone de Beauvoir em sua visita com o marido Jean-Paul Sartre. Ela criticou a “loucura de erguer uma cidade tão artificial em meio a um deserto”, e disse que tinha a sensação de ter visto “o nascer de um monstro cujos corações e pulmões funcionavam artificialmente, graças a processos de um custo mirabolante”, e mais tarde a consideraria “a mais demente lucubração que o cérebro humano jamais concebeu. Ainda diz, “esta cidade jamais terá alma, coração, carne ou sangue.” A poetisa criada no brasil Clarice Lispector expressou sentimentos no mesmo tom, “há alguma coisa aqui que me dá medo. Quando eu descobrir o que me assusta, saberei também o que amo aqui. Em Brasília não há por onde entrar nem por onde sair,” e chamou-a de “uma prisão ao ar livre.”

 

A construção da capital é muito rápida e brutal, como se ainda, nenhum amadurecimento de ego pudesse ser possível, como se a dor fosse tão constante e insuportável que algo tivesse que cortar e colocar um fim a ela; a própria construção de uma persona que tenta ser verdadeiramente alguém não tão cindido como, em verdade, é. O passado ainda não está absorvido e cuidado, e é empurrado para debaixo do tapete, aparentemente resolvido, embora os sintomas sempre permaneçam, sejam vistos e sentidos nos próprios olhares do lugar.

A construção de Brasília também custa vidas, já que os trabalhadores são empurrados até seus limites e muitos não suportam. O ego é construído a partir de um imediatismo de ter o que não foi formado naturalmente, uma maturidade, tornando-se mortal durante a sua formação e bastante cruel como resultado. Como reação à forte intenção de resolver um ego cindido e ao medo de tanta instabilidade levar ao comunismo (o mais alto grau de organização massificada e o menor grau de dissociação e desenvolvimento individual), uma ação militar assume o controle da capital e se instala a ditadura.

Se Brasília representava o ego daquele momento do país, o medo era de que sua instabilidade juvenil o desintegrasse e, portanto, forças inconscientes maduras (ocultas, como ocorre nos golpes políticos), de natureza rígida e muito bem estruturada teriam que resolver a questão com as próprias mãos. Ademais, vale lembrar que a força militar parece permanecer à espreita, preparada para tomar frente somente em casos raros e extremos (especialmente tratando-se de um país visto como pacífico, como o Brasil). Lembram em muito energias psíquicas poderosas e esquecidas que, ativadas pela mobilização de complexos, surgem de forma explosiva com grande quantidade de raiva e violência, especialmente dentro de uma sistema moralmente contido. O sonho que parecia demasiado Puer, jovem demais para ser libertado ,é tomada pelo Senex, o velho. A dinâmica também mostra a fragilidade tentando ser resolvida pela força, que, por sua vez, acaba por gerar mais dominação da energia psíquica do país. Ambas as extremidades podem facilmente controlar um ego que se perde e corre o risco de ser constantemente capturado por forças opostas se complexos não são cuidados.

Com os militares no controle do país alegando serem a única forma de restaurar a ordem, cresce um grande sentimento de opressão. Artistas e estudiosos são banidos, e os grupos resistentes são formados. O momento é o mais próximo de uma guerra civil que o Brasil já teve. Mas ainda, bem ali, no centro do país, na cidade-persona morta de Brasília, a vida começa a brotar novamente. Durante as tardes chatas sem nada para fazer, os filhos de embaixadores e professores que acreditaram em uma nova vida na nova capital reuniam-se e, influenciados pelo novo movimento musical crescente na Europa, o chamado punk, começam a mostrar a sua sentimentos pelo país, por Brasília e o futuro.

Este não é apenas um movimento que cresce a partir da repressão estabelecida, contra o governo, algo que sempre aconteceu em diferentes lugares e momentos ao longo da história. Este encontro especial começa a formar as bandas de rock mais influentes da história do país, juntamente com o cantor de rock mais influente, Renato Russo, e torna-se um movimento cultural que carrega e denuncia as condições psíquicas da nação.

Uma vez mais, os complexos brasileiros da mãe e do órfão só podem ser trazido à tona pelos filhos, e novamente por meio da raiva e de sentimentos marciais, uma vez que estão ligados ao movimento punk com a sua forte veia política. Não é por acaso que, até hoje, a guerra civil interna e latente com a qual o país é obrigado a conviver através da rotineira criminalidade e violência intensa (mascarada pela a diversão pela qual o país é conhecido) e que é muitas vezes comparada a guerras como a do Vietnã, geralmente contam com a participação de crianças brasileiras, os meninos de rua, os mesmos indivíduos que vêm de famílias desestruturadas, sem uma maternidade suficientemente boa e que revivem a condição psíquica original como se fossem  sintomas que não desaparecerão até que o país realmente os acolha.

 

Renato Russo, ele mesmo como o líder e porta voz dos filhos do novo núcleo começa seus próprios anos de formação como uma criança cindida quando, no início de sua vida, é tomado por uma doença que o mantém em seu quarto por dois anos lendo e ouvindo um grande número de autores influentes e músicos de todo o mundo. Renato rapidamente torna-se o garoto todos os outros admiram, especialmente quando ele forma, em 1978, sua primeira banda punk chamada Aborto Elétrico. O nome não pode passar despercebido quando incluídos na história destes complexos brasileiros, pois se aborto elétrico é o nome que representa o que os filhos do núcleo do país querem expressar, ele certamente parece expressar os sentimentos de uma vida em potencial que é encerrada anormalmente.

Após um período de relativo sucesso, mas sem nenhum contrato com gravadora, a banda acaba. Renato continua por conta própria por algum tempo e depois se reúne com outras amigos de Brasília para formar, em 1982, a Legião Urbana. O movimento rock na cidade cresce na medida em que outras bandas são formadas e reconhecidas em todo o país. Todas elas carregam a relação de descontentamento político carregada pelo punk e mais fortemente expressa por Renato. Ao longo dos anos seguintes, a Legião Urbana lança trabalhos cheios de conteúdo político e torna-se, lentamente, a banda mais influente entre os jovens brasileiros (na verdade, até hoje, após 17 anos, ainda é a terceira banda musical mais vendida no mundo com Gravadora EMI, chegando a 250 mil cópias para cada álbum vendidos todos os anos). Mas se Legião é a banda que mais vividamente expõe as feridas que o ego brasileiro ganhou no decorrer de seu crescimento, ela também acaba carregando seu destino, um perigo sempre constante em qualquer interação com forças psíquicas. O próprio ato de expor a ferida parece criar de volta sua realidade, transformando-a na própria chance de reconhecer armadilhas psíquicas ou acabar preso nas mesmas.

Após enorme sucesso com o passar dos anos, a banda finalmente planeja voltar para o núcleo e apresentar-se em Brasília, em 1988. Renato quer que seja o concerto de sua vida, mas como sabemos, o show é um grande desastre, uma fusão alquímica entre a banda e o movimento que ele representa, uma segunda catarse mantêm abertas as feridas dos ego abandonados e reprimidos. O fato do conhecido Badernaço ter tomado vida no mesmo dia do esperado um show, parece só reforçar o papel que banda tinha no país. Como se sabe, o Badernaço, em 1986, foi uma grande manifestação contra as medidas econômicas tomadas pelo presidente, quando ônibus foram queimado, carros da polícia foram virados e janelas de lojas quebradas. Foi o primeiro ato organizado pelo povo da capital após a repressão militar, e também parecia ter se tornado uma catarse de tudo o que havia sido mantido guardado, a exposição das feridas que o período da ditadura havia deixado.

Daquele ponto em diante, Legião tomou um caminho diferente, mais pessoal do que político em seus trabalhos seguintes. Mas o show e aquele movimento punk continuariam a ser um microcosmo, embora também imenso, de uma reação a muito do que o país havia passado e a o que havia se tornado, afunilado nas histórias de suas capitais, nos filhos de Brasília, onde haviam crescido (os filhos da revolução) e, finalmente, no próprio Renato Russo, o líder do bando que parecia ter carregado muito daquele momento psíquico. A história da criança abandonada, da maternidade insuficientemente boa e da violência estavam, de novo, mais perto do que nunca.

A Legião Urbana chegaria ao fim em 1996 (ano da morte de Renato), depois de lutar contra a Aids, sozinho e deprimido. No mesmo documentário citado antes, sua mãe relata que a causa da morte registrada na certidão de óbito não é, surpreendentemente, fisiológica, mas emocional. Renato morrera como consequência de sua depressão. De certa forma, pode-se dizer que sua história representou grande parte do complexo cultural brasileiro, e mais do que isso: serve para mostrar o quanto está ativo e ainda não cuidado. A mesma criança que anseia por amor e pertencimento é a criança que reage tomada pelo único recurso que lhe sobra como tentativa de chamar a atenção, através da violência. As crianças que destroem ou causam problemas demandam ser vistas, e vão concreta e simbolicamente corromper a carne e os valores das pessoas que habitam esta nação, quase da mesma forma que a natureza brasileira foi penetrada quando descoberta, ou da maneira enérgica que Brasília, numa tentativa de ter um primeiro ego independente, foi criada. As feridas são as mesmas, elas só mudam suas estratégias de visibilidade.

A condição abandonada foi introjetada com todas as suas consequências, e agora os filhos machucam e matam seus próprios filhos, seu próprio povo. Mais uma vez, ao que parece, a única saída é por meio de um contato profundo com as feridas carregadas e constantemente reproduzidas, com a própria criança que cada brasileiro carrega dentro de si e que mantém abandonada, bem como com as violentas reações que nunca rompem o ciclo, mas o fecham, como fez Renato Russo, que acabou por voltar ao começo mais uma vez.

 

Camilo Ghorayeb
Campinas, São Paulo
VIA: Autópsia Review

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Psicólogo formado pela USF, mestre em Psicologia Profunda com ênfase em estudos Junguianos e Arquetípicos pela Pacifica Graduate Institute, USA. Junto ao trabalho clínico na cidade de Campinas, observa crescer cada vez mais a vontade de aproximar as ideias da psicologia profunda (aquela começada por Freud e Jung) de outras diversas formas de expressão humanas em prol de um projeto de educação psíquica. 

Licença Creative Commons
O trabalho Os Filhos da Revolução: As Raízes Arquetípicas Brasileiras e o movimento Punk-Rock de Renato Russo de Camilo Francisco Ghorayeb está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.
Baseado no trabalho disponível emwww.autopsiareview.org.
Podem estar disponíveis autorizações adicionais às concedidas no âmbito desta licença em Camilo Ghorayeb

 

 

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