O maior monstro do mundo!
17 set 2015

Colaboração

Mayra Matuck é editora adjunta da revista. Jornalista formada pela PUC, com Especialização em Jornalismo Científico pelo LABJOR (Lab. de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp) e Gestão da Inovação pela Fundação Instituto de Administração (FIA) - USP. Gosta de todo Universo da Ciência, Literatura, Pesquisa, Design e tudo o que possa agregar valor da forma menos obsoleta possível!

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Imagem: Angel Rodríguez Campoy, membro do Flickr Commons

Resenha do filme de David Lynch: “O homem elefante”, 1980.

Por ser vítima de uma neurofibromatose múltipla grave (anomalia congênita rara que causa crescimento anormal do sistema nervoso), o londrino John Merrick é o “ganha-pão”de um homem de circo no roteiro de David Lynch

Por Mayra Matuck

“- Não disse nada sobre as suas faculdades mentais.
– É completamente débil mental desde o nascimento.
O homem é um completo idiota. Um idiota graças a Deus.”

(Do roteiro: diálogo entre o diretor do hospital e o Dr. Treves, médico de John no filme “O homem elefante”)

 

S

éculo XIX: “A vida é cheia de surpresas. Pense no destino da mãe dessa pobre criatura… atacada no quarto mês de gravidez por um elefante selvagem… Atacada numa ilha perdida… na África. O resultado está aqui senhoras e senhores… o terrível… Homem Elefante”! 

Era assim que o londrino John Merrick (interpretado por John Hurt) costumava ser apresentado no circo em que era exibido como atração. O “personagem” sofria de uma doença que deformou todo seu corpo, lhe dando uma aparência de elefante. Um dia, o Dr. Frederick Treves (Anthony Hopkins) conhece John e resolve estudá-lo:

– Obrigado. Boa tarde. Sr. Thomas, Sr. Rogers… Pode abrir as cortinas. É inglês e tem 21 anos. Seu nome é John Merrick. Senhores, no decorrer da minha vida profissional… encontrei as mais lamentáveis deformidades… causadas por acidentes, doenças e contorções do corpo de várias naturezas. Mas nunca encontrei versão mais degradante do ser humano. Chamo-lhes a atenção para o carácter insidioso da condição do paciente. Dá pra ver lá?”. – Ele estava apresentando John numa palestra para médicos.

– Sim. – Respondem os outros. 

– Notem a hipertrofia craniana. O membro superior direito, totalmente inutilizado. A curvatura alarmante da espinha. Quer virar, por favor? A frouxidão da pele e os fibromas que cobrem quase todo o corpo. E tudo indica que esse padecimento sempre existiu… e vem progredindo de modo acelerado desde o nascimento. O paciente também sofre de bronquite crônica. Um detalhe interessante: apesar das mencionadas anomalias, os órgãos genitais do paciente não foram afetados. O seu braço esquerdo é perfeito como podem ver. Devido à sua condição… papilomas como grandes massas penduradas na pele… a hipertrofia do membro superior direito e todos os seus ossos… a acentuada deformidade da cabeça… o paciente foi apelidado de “Homem Elefante”. Obrigado.

(palmas)

The Elephant Man foi o primeiro filme reconhecido do diretor David Lynch, lançado em 1980 e com oito indicações ao Oscar no ano seguinte. Em preto e branco, conta a história real do órfão “ganha-pão” de Mr. Bytes (interpretado por Freddie Jones).

Joseph Merrick nasceu no ano de 1862 em Leicester, Inglaterra. Ele tinha apenas dois anos quando sua mãe notou que o filho tinha algo estranho. O moço deixou a casa cedo. Foi vendedor de rua e operário, mas só conseguiu ser reconhecido como um freak-show (espetáculo de aberrações). Serviu como “ganha-pão” de um homem que o apresentava num circo. Vivia em numa espécie de cativeiro e apanhava de seu “assessor de imprensa”. No entanto, um dia foi encontrado pelo Dr. Treves (futuro médico da Família Real Britânica), e foi levado para morar num hospital, ter uma qualidade de vida melhor e ser objeto de estudo. Posteriormente, nasce um vínculo de amizade entre o médico e o paciente.

– Num hospital não pode haver segredos. Um médico não acolhe um encapuçado sem suscitar comentários. Por que esse paciente não foi admitido formalmente? Por que está no isolamento?” Ele não é contagioso, é? – pergunta o diretor do hospital para o Dr. Treves.

– Não senhor: ele tem bronquite e foi muito surrado.

– Por que então ele não está na enfermaria?

– Achei que os outros pacientes se chocariam.

– Então é isso? Devo concluir que ele é incurável?

– Sim, senhor.

– O senhor sabe que não aceitamos pacientes incuráveis. É a regra aqui.

– Eu sei disso senhor, mas este caso é excepcional.

Por incapacidade para se expressar dentro dos limites da normalidade, John Merrick era classificado como uma criatura horrível e doente mental.  Mas no decorrer do filme, torna-se alguém amável, digno de atenção e carinho. Ainda assim, não permaneceu livre do monstruoso preconceito que o cercava.

Na maioria dos filmes, o personagem principal sempre se transforma. Mas em “O Homem Elefante”, o personagem principal se revela. É nessa revelação que ocorre uma aproximação do espectador com sua própria noção de realidade, tão sombria quanto a feiúra de John. Tão escandalosa e apelativa quanto ele.

O roteiro faz uma condução crítica de vida, de valores, de ética, de solidariedade, de sociedade… com o uso de um apelo “surreal” na história. “O mundo tem que ser representado para ser reconhecido”*: uma reflexão sobre invisibilidade social e humana, longe de ser invisível. Deveríamos, em certa medida, nos incluir nisso.

Veja o trailer do filme: 

David Lynch   

David Lynch

Bibliografia:
LYNCH, David. O Homem Elefante. 1980. Obs: as aspas dos diálogos usados na resenha foram retiradas do próprio filme.
*MACHADO, Arlindo. Pré-cinemas & Pós-cinemas. 2. ed. Campinas – São Paulo: Papirus, 2002. p. 58 e 59.

 

Curiosidades:

O “personagem” real morreu de asfixia em 1890, quando foi deitar para dormir, o peso da cabeça esmagou a traquéia. Seu corpo está conservado no Hospital Real Londres – a quem interessar possa.

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Gênero: drama
Tempo: 120min
Lançamento: 1980
Elenco: Anthony Hopkins, John Hurt, Anne Bancroft, John Giegud, Wendy Hiller
Diretor: David Lynch
Produtores: Stuart Cornfield e Jonathan Sanger

Anamorfose

A produção de alucinações teve início no século XVII, com o conceito de Anamorfose; um instrumento gerador de alucinações cujas técnicas constituem em um deslocamento do ponto de vista a partir do qual a imagem é visualizada, sem eliminar a posição anterior, decorrendo num desarranjo de perspectivas originais com a idéia de distorcer o padrão “realista” (renascentista) da técnica. Mas abrangeu uma poética da abstração, um efetivo mecanismo de ilusão de ótica, e até mesmo “uma filosofia da falsificação da realidade”. (Baltrusaitis 1977, p.1).

Vale reparar que Lynch fez uso da técnica no filme.

Programa Moviola entrevista Mayra Matuck, editora da Autópsia sobre a filmografia do diretor David Lynch:

Mayra Matuck 
São Paulo, SP
VIA: Autópsia Review e Críticas de Filmes

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Mayra Matuck é jornalista formada pela PUC, com Pós- Graduação em Jornalismo Científico pelo LABJOR (Lab. de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp) e Gestão da Inovação pela Fundação Instituto de Administração (FIA) – USP. Gosta de todo Universo da Ciência, Literatura, Pesquisa, Design e tudo o que possa agregar valor da forma menos obsoleta possível!
Site pessoal: www.umatelaindiscreta.digitalinretro.com

Licença Creative Commons
O trabalho O maior monstro do mundo – resenha do filme “O homem elefante” de Mayra Matuck está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.
Baseado no trabalho disponível em www.criticasdefilmes.com.br.
Podem estar disponíveis autorizações adicionais às concedidas no âmbito desta licença em www.autopsiareview.org.

1 Comment
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  1. É um filme bem impressionável…, interessante a abordagem feita pelo site.

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