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Negativos
20 jan 2013

Colaboração

Mayra Matuck é editora adjunta da revista. Jornalista formada pela PUC, com Especialização em Jornalismo Científico pelo LABJOR (Lab. de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp) e Gestão da Inovação pela Fundação Instituto de Administração (FIA) - USP. Gosta de todo Universo da Ciência, Literatura, Pesquisa, Design e tudo o que possa agregar valor da forma menos obsoleta possível!

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Conto

Por Mayra Matuck 

N

a Rua dos Fantasmas existiu uma mansão que era conhecida pela seguinte estória: uma enfermeira muito dedicada continuou a morou na mansão mesmo após a morte do dono, que estava doente e era tratado por ela há anos. A enfermeira morou lá até a sua própria morte. A mansão, por sua vez, era misteriosa, nebulosa, tridimensional… e isso, desde sempre, foi a curiosidade dos vizinhos, cujas casas eram bem diferentes desta. Era um casarão que existia muito antes do falecido, da enfermeira e dos vizinhos. A impressão era de simplesmente ter nascido naquele terreno, brotado lá. Assim os vizinhos a sentiam, mas nunca ninguém soube do passado da mansão. O interessante é que quando esses vizinhos recebiam visitas, contavam uma história/estória como se fosse verdadeira: o que supunham que a mansão representava para eles.

A única parte de toda a versão comprovada por fatos do passado, foi que Márcia, a enfermeira, morreu assassinada em um assalto dentro da imensa casa, e não se soube de mais nada… Em noites de lua cheia, as crianças e adolescentes reuniam-se na calçada bem em frente ao casarão para rituais supersticiosos. Embora nunca tivessem ao menos tido a coragem de entrar lá dentro, mesmo que a curiosidade os devorasse, o medo era ainda maior.

Carlinhos era um cara da turma dos adolescentes. Estava sozinho e resolveu observar a mansão da penumbra. Viu através da única janela que se encontrava aberta, com a madeira não tão podre, através da cortina rasgada que seguia o ritmo dos ventos – no caso, o único companheiro de dança – um vulto negro. Estremeceu… De dia a mansão parecia serena, compacta e a janela conservava uma certa leveza. Já à noite, era a mansão amedrontadora que pertencia ao clima da escuridão. Mesmo sendo algo inanimado, possuia uma alma clara no meio do escuro. O medo aumentava. As árvores gigantes e as folhas das bananeiras se tornavam verdadeiros túmulos na sombra da noite, juntamente com o reflexo da lua. Mesmo assim, Carlinhos quis enterrar de uma vez por todas a ilusão e entrar na mansão.

Pegou uma lanterna e chamou seu amigo, mas este preferiu ficar projetando ilusões fora da casa… Passou pelo grande portão de ferro, caminhou pelo jardim pisando nas folhas secas e volumosas de anos sem limpeza, ouvindo o ruído de passarinhos e corujas… Encontrou ao fundo uma enorme piscina com troncos de madeira e folhas boiando em cima da água suja. No momento em que se encontrava bem na frente da porta de entrada da casa, desligou a lanterna, e permaneceu ouvindo os mesmos ruídos que acabara de ouvir na presença da luz. Passou assim a enxergar a cor negra, e a enorme lua cheia distante dele. Ficou por segundos curtindo o medo. Depois, acendeu novamente a lanterna.

Desligou novamente. Fechou os olhos. Lembrou de tudo o que a mansão representou e representava para ele. Pensou no que gostaria de encontrar e de não encontrar lá dentro. Foram pensamentos profundos, mergulhados em sua verdadeira ilusão, na busca de uma verdade… “O ponteiro dos minutos nunca bate duas vezes no relógio do destino” (*). Abriu os olhos, ligou a lanterna, deu um passo para entrar…

Nem teve o trabalho de abrir a porta – aliás enorme e podre. Foi tão rápido! Caiu sobre ele sessenta segundos passados, quando metade de seu corpo estava dentro da sala da mansão. Ou seja: sua curiosidade durou apenas um passo! Foi o tempo daquele desvendar. Foi nesse momento que a mansão admitiu estar tão velha, frágil, incapaz de suportar o peso de qualquer invasor. Ainda que podres, no último manifesto de vigor, os ferros expostos, das vigas já deterioradas da casa, ainda conseguiram atravessar os pulmões de Carlinhos. Foi assim que a mansão desmoronou como pó, em um passe de mágica, como se lá nunca tivesse morado, brotado. Não se soube mais nada. Somente do que os olhos dele alcançaram ver, e dos riscos…

(*) David Sainá. “A arte de ser feliz”

Mayra Matuck 
São Paulo, SP 
VIA: AutópsiaReview  

Mayra Matuck é jornalista formada pela PUC, com Pós- Graduação em Jornalismo Científico pelo LABJOR (Lab. de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp) e Gestão da Inovação pela Fundação Instituto de Administração (FIA) – USP. Gosta de todo Universo da Ciência, Literatura, Pesquisa e Design, e tudo o que possa agregar valor da forma menos obsoleta possível!
Site pessoal: www.umatelaindiscreta.digitalinretro.com 
 

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O trabalho Negativos – Conto de Mayra Matuck está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.
Baseado no trabalho disponível emwww.autopsiareview.org.
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