08 jul 2017

Colaboração

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Julian Assange fala do futuro da internet
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Imagem: Divulgação. Google Imagens adaptado.

Por Autópsia Review: Ciência, Sociedade & ArTe – Redação

Julian Assange fala sobre livro que aborda o futuro da internet
Transcrição da entrevista em video realizada pelo G1 

 

C

riada pelo ciberativista australiano Julian Assange o Wikileaks (https://wikileaks.org) é considerado a maior fonte de informações na internet a respeito de documentos secretos de governos poderosos. Tornaram-se públicos documentos como o manual de procedimentos do exército americano com os prisioneiros de Guantánamo, relatório sobre o massacre de civis no Iraque, telegramas trocados entre o governo dos EUA e suas 274 embaixadas (inclusive sobre as espionagens contra aliados nas Nações Unidas), entre outros de relevância mundial. A entrevista abaixo está disponível em video nos links: http://globotv.globo.com/globo-news/milenio/v/julian-assange-fala-sobre-livro-que-aborda-futuro-da-internet/2386774/ e https://www.youtube.com/watch?v=zFoJ6Li3aio

Em 2013, o G1 realizou a entrevista na embaixada do Equador no Reino Unido e o repórter faz um breve relato sobre o ambiente no dia em que realizou a entrevista: “Hoje, na tarde gelada londrina, os defensores internacionais de Assange na frente do prédio são apenas três: uma chilena, um irlandês e um italiano. Trazem cópias de um manifesto de feministas suecas que lutam contra os estupros, e que denunciam como farsa o processo que ele deveria responder na Suécia por este crime. Um crime que ele diz que não cometeu. O medo de Assange é o de ser extraditado para os EUA, onde foi aberta uma investigação criminal que pode levá-lo para uma viagem sem volta pelas as prisões americanas. E onde ele vem sendo ameaçado de morte. Confinado na embaixada, Julian Assange fala agora através de um livro: Cypherpunks: liberdade e o futuro da internet, que está sendo lançado no Brasil pela Editora Boitempo. Um livro, que como afirma em sua primeira fase de tradução: ‘não é um manifesto, é um aviso’. Esse aviso é tema central de nossa cronometrada entrevista”:

Globo News; Para começar, é claro que podemos dizer que este livro é uma maneira de ir em frente, além de seu confinamento, de espalhar suas ideias. Mas aqui não há apenas suas ideias, há as ideias de um grupo internacional que tem trabalhado há bastante tempo no que você chama de “nova arquitetura para a internet”. Eu vou apresentá-los, pois acho importante. São eles: Jacob Appelbaum; de São Francisco, o alemão Andy Muller-Maguhn, co-fundador do Chaos Computer Club, em Berlim, a maior associação de hackers da Europa.

Assange; Do mundo.

G1; Do mundo? Aqui, ela continua a apresentação: E Jérémie Zimmermann, fundador da La Quadrature Du Net, que teve um papel muito importante ao combater …

Assange; Ela provavelmente é a organização política da internet mais importante da Europa.

G1; Então, como e há quanto tempo vocês trabalham juntos?

Assange; É importante entender que não é uma questão que diz respeito apenas à internet. Essas ideias tem sido desenvolvidas há mais de 20 anos, e dizem respeito à integração entre a sociedade como um todo e a internet, e isso está acontecendo agora. Portanto, as nossas comunicações pessoais, entre pessoas do mesmo departamento e entre Estados acontecem na internet. A internet penetrou completamente no que antes chamaríamos de “sociedades do primeiro e segundo mundos” e tem uma penetração considerável nos aparatos estatais e empresariais.  Até mesmo em países muito pobres, ainda em desenvolvimento. Então este livro não é sobre a internet, é um livro sobre a civilização moderna. A civilização moderna e a internet não estão separadas. Pensando em um tempo atrás, vemos que algumas tendências descritas neste livro como a interação entre a tecnologia, e a democratização da mesma e o poder dos Estados, foram identificadas por George Orwell. Outro dia mesmo, eu li um artigo publicado no Tribune em 19 de outubro de 1945 no qual Orwell …

G1; Você cita Orwell em seu livro.

Assange; Embora eu não conhecesse o artigo quando escrevi o livro. Mas é fascinante ver que, em 1945, Orwell assistia a democratização das armas, e, na opinião dele, a história da civilização, é a história das armas, fossem elas armas como o riffle Flintlock, que podem ser usadas por pequenos grupos de pessoas, por indivíduos, ou armas nucleares, que eram a grande preocupação daquela época, e que, por natureza, só podem ser produzidas por grandes Estados. Então, nesta batalha entre a tecnologia disponível, apenas para um aparato estatal muito centralizado, talvez apenas para 2 ou 3 superpotências, e a tecnologia disponível para a maioria dos indivíduos e para grupos menores, nós vemos o que acontecia naquele ambiente pós-guerra. E que durou pelo menos até 10 anos atrás. Que era a divisão do mundo em três grandes grupos de força. O interessante é que agora há uma nova batalha tecnológica, uma nova corrida armamentista travada, por um lado,  pelos grandes sistemas de vigilância, disponíveis para grupos capazes de interceptar fluxos de comunicações entre continentes inteiros.  

G1; Você diria que Aaron Swartz, que se suicidou em janeiro, fazia parte deste grupo?

Assange; Ele era mais do que parte daquele grupo, era alguém que ajudava o WikiLeaks ativamente. E parte do motivo pelo qual prenderam Swartz em janeiro de 2011, foi parte de um fervor neomarcatista após o Cablegate causado pelo WikiLeaks. Não sei se os teleespectadores se lembram disso, mas os vazamentos do Cablegate começaram em 29 de novembro de 2010. E os EUA e aliados no Ocidente ficaram totalmente obcecados com isso. Políticos estrangeiros queriam que eu fosse assassinado, Joseph Biden, vice-presidente dos EUA, me classificou de “terrorista-hi-tech”; foi apresentado ao Congresso e ao Senado um projeto de Lei, que nos declarava combatentes inimigos, de modo que não precisavam seguir a Lei ao nos perseguir, como fazem com a Al-Qaeda, etc. Swartz foi detido dia 4 de janeiro e, por isso, tivemos muito apoio na região de Boston, pois Swartz era de Boston. A acusação contra ele foi parte desta histeria causada pelo WikiLeaks. Swatz era meu amigo, então, aquele processo absurdo contra ele, totalmente absurdo, e sua desproporcionalidade são resultado do desejo do governo americano de tentar se mostrar implacável contra ativistas da internet. O governo Obama abriu mais processos com base na segurança nacional de que todos os governos anteriores juntos, na verdade foi mais do que todos os governos anteiores juntos.

G1; Estamos falando de um poder que está acima do poder. Acima dos Estados e eu gostaria de citá-lo: “O mundo avança a passos largos para uma nova distopia transnacional sob a denominação da indústria, da vigilância de massa”, a qual tomou forma, digamos, nos últimos 20, 30 anos. Por favor, descreva para nós como é essa distopia e me diga se é Possível dizer se a internet se tornou o maior banco de informações pessoais da humanidade?

Assange; A internet se tornou a mais importante máquina de espionagem jamais inventada. Ela coloca a penetração do Stasi na Alemanha Oriental, junto à população alemã, no chileno. Hoje temos uma situação em que o indivíduo do mundo todo, empresas do mundo todo, governos do mundo todo, colocam informações bem detalhadas sobre a própria vida, suas transações, em serviços centrais e através de linhas de telecomunicações, que podem ser interceptadas ou se tornam disponíveis, principalmente para a inteligência dos EUA. Há alguns outros atores envolvidos nisso, como a inteligência russa, mas com uma atuação limitada, a Inteligência britânica, a francesa… e, em nível nacional, há uma comercialização do equipamento usado para isso, de modo que a Líbia, por exemplo, tinha todo o sistema de vigilância nacional fornecido pela empresa francesa Amesys. Na América-Latina, podemos ver que praticamente todas as comunicações da América-Latina com a Europa, com o Leste Asiático, passam pelos Estados Unidos. Até mesmo comunicações entre países latino-americanos, muitas vezes passam por eles e volta pra eles.

G1; Você poderia me dar um exemplo de como isso ocorre?

Assange; A National Security Agency, que é a principal agencia de espionagem eletrônica dos EUA admitiu para o Congresso que intercepta 1.6 bilhão de comunicações por dia. Há 7 bilhões de pessoas no planeta.

G1; Você poderia me explicar a diferença entre o que podemos chamar de vigilância patrocinada pelo Estado por países autoritários , ou não – 1.6 bilhões de interceptações é um número bem alto – e vigilância privada, principalmente a coleta privada de dados. Podemos distinguir a vigilância estatal da privada?

Assange; O interessante é que na verdade, não. E isso é fascinante. O que ocorre hoje é que provedores de internet levaram um sacudida do governo, então passaram a se ver como parte do sistema. O mesmo acontece com o Facebook e o Google. Eles não se vêem como empresas desligadas do governo americano, se vêem como parte do sistema. É uma questão de registro público. Os EUA emitiram centenas de milhares de cartas somente da National Security Agency, requisitando registro dos últimos cinco anos, sem que o judiciário fosse envolvido. Dizendo que uma atividade criminosa precisava ser descoberta, que eles precisavam passar essas informações. Desenvolveram interfaces automatizadas para atender mais rápidos essas requisitações por causa do grande número. 

G1; Você disse que essa integração entre as estruturas estatais existentes e a internet está mudando a própria estrutura dos Estados. Eu gostaria que você explicasse melhor essa ideia.

Assange; A internet é como um sistema nervoso, as artérias da sociedade, e a sociedade, obviamente, inclui o Estado. Então, a integração entre comunicações internas do Estado, as comunicações internas da sociedade e a internet está completa. Muito pouco da comunicação formal não acontece na internet. É claro que há conversas sussurradas em corredores, mas, se quiser comunicar algo em grande escala, e os Estados fazem coisas em grande escala, em algum ponto entre conversas de corredor e a implementação, a informação precisa se concretizar, ser transformada em ordens e instruções, diretrizes e coisas do gênero. E tudo isso acontece pela internet. Há uma intermediação entre minha vida e meus dados no setor bancário. O sistema financeiro se integrou à internet. Então, se você falar de vigilância de transações financeiras, ou se for olhar o sistema de vigilância que os franceses da Amesys venderam para Kadafi, ele interceptava a internet e também identificava transações financeiras feitas pela internet.

G1; Podemos dizer que transações financeiras pela internet também foram o topo dessa pirâmide, como você descreve no livro, desse novo sistema que sustenta as comunicações hi-tech? Foi exatamente o mercado econômico?

Assange; Não, eu não creio. O que sustenta a internet é esses sistema neoliberal e todos os avanços tecnológicos que ocorreram no mundo todo, e mesmo os elementos não neoliberais, como universidades e centros de pesquisa. Portanto, a internet repousa sobre todos os desenvolvimentos da civilização internacional, das minas de cobalto do Congo aos pesquisadores do MIT. A internet é o topo do desenvolvimento tecnológico humano. Infelizmente isso significa que é muito difícil ter… Não é Possível remover facilmente os elementos ruins da civilização internacional e ainda manter a internet, porque ela depende de todo o resto. O que podemos fazer é usar os mecanismos de equalização do poder de democratização e de educação da internet da melhor maneira Possível. Mas precisamos entender que, se rebeldes usam uma arma, é porque existe uma fábrica de armas.

G1; A principal arma que você propõe contra essa vigilância de massa é a criptografia. E, como você disse, o universo acredita na criptografia. É mais fácil criptografar do que …

Assange; Descriptografar. É fascinante. Não precisava ser assim. Descriptografar poderia ser tão fácil quanto criptografar. Criptografar significa que um indivíduo ou um grupo de indivíduos pode lutar contra o poder de uma superpotência. A vontade de uma superpotência e vencer.  Por quê, o que é uma superpotência? Ela pode usar mais força coerciva que qualquer poder. Não importa quanta força coerciva você use para resolver um grande problema, não poderá acabar com esse grande problema. Esses problemas parecem estar unidos à física básica do mundo de uma maneira importante. Não importa quanta regra política exista, não se pode mudar esse fato básico de como o mundo funciona. Assim, uma criptografia boa, forte dá aos indivíduos o poder de luar contra superpotências, daquela maneira específica. De várias outras maneiras, eles não podem fazer isso. Mas, dessa maneira, podem. Então, nesse aspecto, essa tecnologia é libertadora. Porque as superpotências também usam a criptografia para manter a segurança de suas próprias comunicações. Então não é algo usado apenas para libertar as pessoas, ela também pode ser usada pelas superpotências para aumentar o domínio delas. Ao contrario das armas nucleares, que só podem ser usadas pelas superpotências, ou grandes Estados, a criptografia pode ser usada por indivíduos ou pequenos grupos.

G1; Sim, pode ser usada pelo o que você chama de “quatro cavaleiros do ‘infoapocalipse’”. Pornografia infantil, terrorismo, lavagem de dinheiro e tráfico de drogas. Como você lida com isso?

Assange; A expressão “quatro cavaleiros do ‘infoapocalipse’” foi usada para mostrar como é a propaganda a favor do controle do Estado, em especial, dos EUA, que se amplia constantemente. Por exemplo: “Temos que usar censura na internet toda, interceptar tudo, caso sejam praticadas essas atividades”. E, obviamente, quando se cria um sistema de vigilância de massa porque quer eliminar uma só atividade, você acaba espionando todo mundo e tem capacidade para interromper qualquer atividade.

G1; Você disse que 2013 seria um ano atripulado, pois o WikiLeaks tem mais de 1 milhão de documentos prontos para serem divulgados, e você também disse que, na Austrália, seu pais, um senador não eleito seria substituído por um eleito. Se juntarmos essas duas atividades: a divulgação de informações e as eleições políticas, o que podemos deduzir disso?

Assange; Podemos deduzir … bem… vamos voltar um pouco… Desde que a embaixada do Equador me concedeu asilo, recebendo o apoio de praticamente toda a América-Latina, minha posição está mais estável, e isso nos permitiu planejar bem mais à frente do que antes. Em 2011, e, no início de 2012, nós estávamos em uma batalha muito frágil e constante, que, a qualquer momento, poderia levar à minha extradição, à prisão de outras pessoas… Além desse bloqueio bancário absurdo imposto a nós pela Visa, MasterCard, PayPal, Western Union, MoneyBookers e Bank Of America. Para nos estrangular. Algo totalmente extrajudicial, ilegal. Vencemos uma ação contra eles, e o bloqueio teve que ser interrompido. Esse tipo de ataque constante dificultou o nosso planejamento e a organização ficou em um estado muito critico. Desde que recebi asilo no Equador, temos conseguido nos organizar e planejar melhor. O que foi ótimo porque conseguimos desenvolver sistemas e projetos que já queríamos fazer havia um bom tempo. Isso incluía a campanha política australiana…

G1; Você é candidato a uma cadeira no Parlamentarismo australiano para o Senado, é isso?

Assange; Sim.

G1; Em 2013? O WikiLeaks mudou a sua vida, como mudou a vida de Bradley Manning, um soldado de 25 anos que está preso desde julho de 2010 em condições muito duras. Eu gostaria de perguntar como isso afeta você particularmente e a equipe do WikiLeaks.

Assange; Esse tipo de coisa não é algo inesperado. Já tivemos algumas pessoas antes e depois de Bradley nas mesmas condições. Temos pessoas sendo julgadas e processadas por júris superiores nos Estados Unidos há mais de dois anos. Então temos mais de uma Dúzia de processos legais em curso no mundo todo. No que diz respeito aos EUA, eles montaram sua própria documentação oficial e a investigação contra nós tem uma escala e uma natureza sem precedentes em todas as investigações governamentais. Nós vimos essa documentação, que envolve uma dúzia de diferentes agências. É algo grande e faz parte. Mas nós sabemos que eles estão investindo tantos recursos porque nós o estamos atingindo.

Tempo cronometrado acaba. 

Fonte: G1, links http://globotv.globo.com/globo-news/milenio/v/julian-assange-fala-sobre-livro-que-aborda-futuro-da-internet/2386774/ e https://www.youtube.com/watch?v=zFoJ6Li3aio

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