04 jun 2014

Colaboração

Anderson Sepulveda Um biólogo formado pela Unicamp. Apaixonado por Ciências e História. Estudante de Física na USP, flerta com Exatas na exploração de Biomatemática e Biofísica. Viciado em chocolate e café. Site pessoal: http://pragassa.wordpress.com/

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Hitler não era um bom captador de possibilidades científicas
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Imagem: Gareth Bragdon – membro do Flickr Commons

Por Anderson Sepulveda

A

ntes da ascensão nazista, Hitler já afirmava a necessidade de implantar na população através da educação as ideias de higiene racial, como pode ser visto no seguinte trecho de Mein Kampf:

“Toda a organização de educação e treinamento que o Estado do Povo construiu deve levar como meta principal o trabalho de instalar nos corações e mentes da juventude os instintos raciais e entendimento da ideia racial. Nenhum menino ou menina deve sair da escola sem ter enraizado um pensamento claro do significado de pureza racial e a importância da manutenção do sangue da raça inalterado. Portanto, a primeira condição indispensável para preservação de nossa raça terá sido estabelecida e o futuro progresso cultural de nosso povo assegurado.” [WELCH, 2002].

Na publicação A Origem das Espécies, de 1859, Charles Darwin, baseado na Ciência, também abordou o determinismo biológico como justificativa para o racismo (qualquer um que não seja ariano), – o que resultou em um “darwinismo social”, isto é, uma tentativa de aplicar entre as raças, a Teoria de Darwin na sociedade humana.

Os darwinistas sociais alemães temiam a degeneração da raça por dois motivos: o cuidado médico com os “fracos” teria começado a destruir a luta natural pela existência e o fato de pobres e desajustados do mundo estarem se reproduzindo mais rapidamente do que os saudáveis, tanto é, que em um documento de 1895, Alfred Ploetz (um dos principais darwinistas sociais da Alemanha) alertou que vários tipos de “contrasseleções” sociais, como guerra, revolução, cuidado com os inferiores podem levar à degeneração social, já que os “inferiores” ou inaptos à sobrevivência teriam mais chance de viver que os “superiores”. [PROCTOR, 1988].

i1_texto_anderson                                     Imagem: Ben Heine – membro do Flickr Commons

A capacidade física e vigor mental eram critérios para uma reorganização hierárquica e funcional da sociedade. Saúde e raça eram valores centrais da Alemanha nazista. Nazistas e higienistas acreditavam num conceito de saúde baseado na superioridade da raça, sendo isso, uma justificava para o antissemitismo e o imperialismo. “Judeus, ciganos e homossexuais foram estigmatizados como ‘parasitas’ ou como ‘tumor’” da Alemanha. O cuidado com a saúde do povo alemão, sem os “inferiores”, selecionaria uma elite nórdica, que resultaria em uma nação forte e saudável. Instituições médicas, programas de propaganda e políticas públicas foram estruturadas por essa ideologia.

Os nazistas captaram movimentos pré-existentes, como a maternidade, o cuidado familiar e saúde nacional, e incorporaram na sua ideologia de pureza racial; e isso correspondia aos interesses dos higienistas no estabelecimento da eugenia como base da saúde pública. [WEINDLING, 1993; RICKMANN, 2002].  “Higienistas raciais” tinham grandes expectativas no Nacional Socialismo – em alemão: Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei, mais conhecido como partido nazista) pois este, permitiria que médicos criassem soluções científicas para problemas sociais. A destruição de instituições democráticas da República de Weimar foi vista como um caminho para uma legislação eugênica, que resolveria o problema dos antissociais, degenerados e doentes crônicos. Os higienistas raciais estavam próximos de Hitler só por causa do momento que era propício, visto que ainda existem higienistas raciais atuantes, mas felizmente vistos mais como pseudocientistas que cientistas.

As áreas da Psicologia, Antropologia e Genética Humana foram beneficiadas pelo Terceiro Reich, e deram apoio para pesquisas durante o governo nazista, que, por sua vez, proveu substancial suporte em criminologia biológica, patologia genética e antropologia.

O governo alemão deu suporte para estudos com gêmeos e pesquisa genealógica, uma tentativa para determinar os efeitos da genética e do ambiente.
[SIEG, 2001; RICKMANN, 2002].

O centro intelectual era o Instituto Kaiser Wilhelm para Antropologia, Genética Humana e Eugenia, chefiado por Eugen Fischer, um apaixonado pela crença da perfeição racial germânica. [FISCHER, 1999]. Muitos geneticistas, como Fritz Lenz, esperavam a aplicação prática dos resultados de seus trabalhos científicos, contribuindo assim com a reconstrução da sociedade de acordo com as leis da biologia. E o ganho de mais recursos para continuar seus programas de pesquisa. As instituições do Estado, por sua vez, esperavam a legitimação científica para as políticas raciais e de saúde, como a Lei de Esterilização “para prevenção da proliferação dos geneticamente doentes”. [Gesetz zur Verhütung erbkranken Nachwuchses, de 14 de julho de 1933, que legalizava a esterilização forçada].

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Esquizofrênicos, deficientes mentais, alcoólatras e “degenerados” começaram a passar em Cortes de Saúde Genética. Quem fosse “homozigoto” para a doença genética passava para esterilização por raios-X

Imagem:  Linnea Strid – membro do Flickr Commons

 

 

Em 15 de setembro de 1935, como parte das Leis de Nuremberg, três medidas eram compreendidas:  além da Lei para Proteção do Sangue e da Lei da Cidadania do Reich, a terceira, foi a Lei para Proteção da Saúde Genética do Povo Alemão (Gesetz zum Schutze der Erbgesundheit des Deutschen Volkes) ou Lei da Saúde Marital, que proibia o casamento de quem era geneticamente doente com o saudável. A Lei para Proteção do Sangue e Honra Alemão (Gesetz zum Schutze des deutschen Blutes und der deutschen Ehre) e a Lei da Cidadania do Reich excluíram os judeus da vida cotidiana da Alemanha, das relações com não judeus e tiraram os seus direitos civis, o que daria disponibilidade dos judeus como “material de pesquisa”. [PROCTOR, 1988; ROELCKE, 2004]. 

Intrínseco à ideia de “comunidade nacional” estava a crença nazista na necessidade da pureza racial, principalmente dominada pela Questão Judaica, ou Judenfrage, tanto dentro da Alemanha quanto no exterior; outro inimigo da pureza ariana eram os eslavos da Polônia e da Rússia, ou Untermenschen (sub-humanos). Para os nazistas, os judeus prejudicavam a Alemanha como grandes capitalistas que sugavam a vida dos arianos, mas os judeus também estariam ligados com uma conspiração judaica-bolchevique no mundo. [PROCTOR, 1988; WELCH, 2002]. 

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Hitler não era um bom captador das possibilidades científicas. O que se viu após a expulsão e perseguição de cientistas judeus, foi o prejuízo à produção científica e ao desenvolvimento tecnológico durante a guerra. Quando a guerra começou a pender para o lado dos Aliados, a Alemanha não planejou esforços sistemáticos para organizar seus recursos científicos. Em 1940, por exemplo, o alto comando das Forças Armadas Alemãs (Wehrmacht) suspendeu todos os projetos científicos que não prometiam resultados militares alcançáveis dentro de quatro meses. No momento que se fazia mais necessário o desenvolvimento de tecnologia no final da guerra, Hitler foi obrigado a encorajar novos projetos, mas já era tarde. [FISCHER, 1999].

 

Anderson Sepulveda
São Paulo, SP
VIA: Autópsia Review

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Anderson Sepulveda
Um biólogo formado pela Unicamp. Apaixonado por Ciências e História. Estudante de Física na USP, flerta com Exatas na exploração de Biomatemática e Biofísica. Viciado em chocolate e café.
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