03 jul 2016

Colaboração

Mayra Matuck é editora adjunta da revista. Jornalista formada pela PUC, com Especialização em Jornalismo Científico pelo LABJOR (Lab. de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp) e Gestão da Inovação pela Fundação Instituto de Administração (FIA) - USP. Gosta de todo Universo da Ciência, Literatura, Pesquisa, Design e tudo o que possa agregar valor da forma menos obsoleta possível!

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Amígdala: o ponto G do cérebro
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Imagem: amígdala em 3D – http://www9.biostr.washington.edu/da.html

Mayra Matuck Sarak, jornalista científica

Amígdala: o ponto G do cérebro
O complexo amigdaloide é uma peça fundamental do nosso instinto de preservação mais remoto

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amígdala é um componente fundamental do sistema límbico cerebral (sistema responsável pelas emoções e comportamentos), popularmente conhecida pela forma de amêndoa. Sua principal função é o de dar um alerta emocional (principalmente negativo), para o gerenciamento e a percepção de ameaças relacionadas ao sentimento de medo.

A amígdala funciona como dois cronômetros reguladores de nossas bases emocionais mais instintivas possíveis e imagináveis. Muitas facetas de comportamentos “desconhecidos” podem ser reveladas se investigarmos esse par de amêndoas mergulhadas em um oceano nem um pouco “Pacífico”, chamado cérebro.

O sentimento de medo

O equilíbrio entre a segurança e o perigo (ambos fundamentais para a sobrevivência) é dado pelo sentimento de medo, que nos orienta para essa diferenciação. Desde a pré-história, era necessário que o ser humano permanecesse em estado de alerta com “anteninhas” de medo e ansiedade para detectar o perigo.

A dupla de “amendoazinhas” (cujo nome científico é complexo amigdaloide) é a parte mais primitiva do cérebro, presente tanto no hemisfério esquerdo quanto direito.

Em termos de desenvolvimento cerebral, garantiu a nossa sobrevivência diante de situações de ameaça. “Esse par recebe e envia informações de diferentes níveis hierárquicos para todas as estruturas cerebrais, tanto do sistema límbico como também do córtex. É um verdadeiro arquivo de memória e intensidade emocional”, revela Carla Tieppo, neurocientista e professora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e da PUC-SP.

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Imagem: wikipedia

 

A amígdala direita  é mais envolvida com respostas ao medo, reconhecimento facial, apego, excitação, agressividade e no despertar do desejo sexual masculino. A amígdala esquerda é mais envolvida na conexão de estruturas de verbalização.

“A amígdala é um sistema que nos permite antecipar situações de risco. É mais do que instinto. É intuição”. Carla Tieppo

Além de ser um eterno vigilante dos comportamentos de medo e ansiedade, a amígdala conecta o passado e o presente. Experiências lembradas como flashbacks também possuem uma orientação dada pela amígdala.

A maioria dos estímulos externos chegam às amígdalas sem linguagem verbal, sem passar necessariamente pelo córtex, área mais racional e linear do cérebro.

 

O cheiro do perigo… e o fantástico mundo da raiva, do medo, da tristeza, da razão, da paixão, do amor e da sexualidade

Embora o olfato seja o mais primitivo e eficiente dos cinco sentidos na captação de informações sensoriais do sistema límbico, as amêndoas escondidas em nosso cérebro estão conectadas com os outros quatro sentidos: visão, tato, audição e paladar. “É a partir dessas informações sensoriais que uma pessoa desenvolve a capacidade de se adaptar em um ambiente”, afirma Tieppo.

O complexo amigdaloide também é ativado para o reconhecimento da alegria, através de expressões faciais. “A imagem neuroanatômica até dá a impressão de ser uma estrutura única, mas é composta por organizações funcionais bem distintas: o núcleo recebe a informação de muitas estruturas diferentes, de diferentes níveis hierárquicos do cérebro, existe um núcleo receptador das informações, um outro que envia as referências, um terceiro que é de processamento interno, além das infraestruturas que conhecemos pouco ainda”, demonstra a pesquisadora.

“A amígdala é uma estrutura que fica no telencéfalo. Acima encontramos um sistema que se desenvolve do centro para a periferia. As estruturas mais vegetativas são o bulbo, ponte, mesencéfalo e cerebelo, que trabalham as funções do batimento cardíaco e do movimento respiratório. O tálamo é uma importante rede de sinais sensoriais e possui o maior aglomerado de neurônios. Alimenta outras estruturas, e também o complexo amigdaloide”. Carla Tiepo

ch_3_amigdalaOuça o Podcast da entrevista com a neurocientista Carla Tieppo.

“Embaixo do córtex cerebral há um conjunto de estruturas muito primitivas no cérebro denominado sistema límbico. Suas estruturas são: septo, amígdala, hipocampo e núcleo accumbens. Pertencem  parcialmente ao córtex cerebral, mas a maioria faz parte do cérebro nasal ou olfatório. Estão envolvidas em processos emocionais relacionados ao medo, raiva, dor, prazer, docilidade, afeição e comportamento sexual. 

A amígdala é um par de órgãos que atua na aprendizagem das emoções de acordo com sua magnitude. O hipocampo é a região onde são formadas as memórias iniciais. Curioso, pois o hipocampo geralmente é maior no cérebro feminino. Essas duas estruturas são importantíssimas na elaboração das emoções no sistema límbico”.

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Fonte: “Sexo, amor, endorfinas e bobagens”. Fabichak, Cibele. Ed. Novo Século. P. 102. 2010

Primórdios da vida emocional: saciedade, medo e desejo sexual

A primeira percepção de mundo externo veio com o desenvolvimento dos lobos olfatórios. Desde os seres vivos mais primitivos, a principal função do sistema nervoso é a de propiciar uma adaptação ao meio ambiente. Três comportamentos desenvolveram-se nesse processo: irritabilidade, condutibilidade e contratilidade.

A primeira memória adquirida pelos vertebrados foi a olfativa, que permitiu a identificação de nutrientes, elementos venenosos, parceiros sexuais, presas e predadores. Enquanto uma camada de células desse córtex primitivo passou a possibilitar o reconhecimento através do cheiro, uma segunda camada de células passou a desencadear um comportamento menos automático e mais inteligente. As conexões existentes entre estruturas límbicas e o hipotálamo (principal coordenador da vida vegetativa), propiciaram o desenvolvimento de sensações básicas como a saciedade, o medo e o desejo sexual. Esses três sentimentos constituíram os primórdios da nossa vida emocional. As amígdalas se formam através da confluência de vários núcleos ao longo da filogênese (teoria evolutiva de organismos vivos). [Guilherme Carvalhal Ribas. FMUSP. Rev. Bras. De Psiquiatria. p. 329. 2006].

O funcionamento das amígdalas pode ser afetado de diversas maneiras e em diferentes níveis por hormônios do estresse, neurotransmissores e outras estruturas cerebrais.

Hormônios do estresse: dor, resposta ao medo, informações sensoriais desconfortáveis.

Neurotransmissores: antecipação do prazer, via dopamina, que alimenta a habilidade do lobo frontal na inibição de comportamentos impulsivos e baixos níveis de serotonina, associados com a agressividade.

Estrutura: o Septum que coloca um freio na agressão gerada pela amígdala.

Fonte: Sapolsky 2005

O Orgasmo das amêndoas 

A médica especialista em Fisiologia pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Cibele Fabichak esclarece que durante o orgasmo, uma parte da amígdala é desativada. “Exatamente a região geradora de ansiedade e medo”, ressalta.

O orgasmo também libera uma proteína chamada oxitocina, também conhecida como o ‘hormônio do amor e da confiança’ que estimula o sistema límbico e interfere na ansiedade de forma positiva. Isso também regula a liberação de dopamina, que gera a sensação de prazer.

As amêndoas e o mundo do hiperestímulo

“Diante das imensas possibilidades que existe num ser humano, ele quer todas. Quando isso é ainda mais visceral, quando falta o básico, quando falta afeto, comida, conforto, piora em dobro” Carla Tieppo

Sintomas de amêndoas comprometidas

> Diminuição e dificuldade em reconhecer expressões faciais.
> Dificuldade em estabelecer julgamentos sociais.
> Falta de empatia.
> Incapacidade de manter atenção pelo olhar e na informação transmitida por ele.

O organismo não adaptado pratica um processo de autodestruição. Vivemos em um mundo de hiperestímulo, mas desagregado. Tal contexto, torna propício uma exacerbação da função do complexo amigdaloide. “Corre-se o risco comum na neurociência de acreditar que num determinado dia o sistema de neurotransmissores esgota-se. Daí, ocorre a depressão, por exemplo. Isso é uma bobagem: não existe o dia em que o sistema dopaminérgico falha! O sistema esgota porque a vida não está boa, porque o prazer não está ocorrendo, porque não há afeto e porque falta um monte de coisas que estimulam a liberação dessa substância. E, que com o tempo, começam a fazer falta. Aí então uma pessoa começa a ter sintomas de depressão”, evidencia Tieppo, neurocientista da Santa Casa.

Na depressão há um aumento de atividade no sistema límbico e a estrutura das amígdalas fica mais alterada. A psiquiatra Marisa Nieri, da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), estudiosa da psiquiatria infantil, ressalta que o sistema nervoso se desenvolve na interação com o outro (e que a química cerebral pode ser alterada por estímulos externos): “O modo como o sistema nervoso amadurece é muito pessoal (e multifatorial), está na relação com o cuidador inicial (geralmente a mãe, e para muitos, uma babá), como ressoam as ações do bebê e como são conduzidas as respostas. Se chorei, como fui cuidado? Se fiquei quieto, o que foi feito? Se fiz birra, como fui tratado? De qualquer modo, é fundamental a capacidade de gerar um vínculo social, algo dificultado por um cuidador ausente, por exemplo”.

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Imagem: Wayne C. Drevets, Centro Médico da Universidade de Petersburgo. Fonte: Mente e Cérebro, setembro de 2013

Normal x Patológico 

“Quando situações ambíguas fazem sentido, os circuitos cerebrais são propensos em orientar a ação pela consciência”. Cozono, 2002.

A amígdala normal é aquela ativada diante de estímulos emocionais. No livro O livro de Ouro da Mente, a escritora científica Rita Carter e o professor-pesquisador de Neuropsicologia do departamento de Neurologia Cognitiva de Wellcome, evidenciam a importância de uma interação íntima entre bebês e mães para garantir o funcionamento normal da amígdala. O medo exacerbado (fobias) é considerado uma patologia. “O que está acontecendo? Como devo reagir? – são alertas normais dados pelo nosso sistema emocional. Porém, quando se exacerba a função da amígdala, pode ocorrer um transtorno traumático”, pontua Tieppo.

Memórias traumáticas são armazenas na amígdala, mais precisamente no que diz respeito ao gerenciamento de estratégias (Schore, 2008). Apegos inseguros estão relacionados com um menor funcionamento do hemisfério cerebral direito, com uma dificuldade em conectar passado e presente.

Estudos em criminologia apontam que psicopatas possuem uma amígdala reduzida diante do tamanho considerado normal. Além disso, o hemisfério direito (que normalmente se ilumina diante de situações emocionais e reconhece emoções através de expressões faciais) e o esquerdo permanecem ativos em pessoas consideras com esse transtorno de conduta. Embora não haja uma comprovação definida, parece fazer sentido se considerarmos que a psicopatia é associada à uma baixa afetividade e baixa reatividade a estímulos sociais.

“Alguns estudos com psicopatas, apontam amígdalas reduzidas, mas isso não é válido para todos os psicopatas. Pesquisadores possuem interesse em realizar estudos com estupradores aqui no Brasil. São coisas que ainda estão para acontecer em decorrência dos exames de neuroimagem. Presidiários, por exemplo, são complicados para trabalhar por serem considerados tutelados do Estado. E, tutelados do Estado não podem ser ‘objetos’ experimentais. Muita gente acha que criminosos deveriam servir à pesquisa exatamente para entendermos como eles funcionam”, argumenta Tieppo. Eis uma questão polêmica para nossas amígdalas apurarem e o nosso córtex refletir.

Referência bibliográfica: 

  • CARTER, Rita. O livro de Ouro da Mente. Rio de Janeiro. Ediouro, 2002.
  • Neurobilogy of the emotions. Revista Brasileira de psiquiatria, vol. 35. São Paulo. Scielo, 2008.
  • OLIVER, Celso Eduardo. O papel das emoções. www.docsystems.med.br.
  • FABICHAK, Cibele. Sexo, amor, endrominas e bobagens. São Paulo. Novo Século, 2010.
  • MONTGOMERY, Arlete; SCHORE, Allan. Neurobiology Essentials for Clinicians: what every therapist needs to know. Nova York. W.W. Norton & Company, Inc, 2013.
  • Fisiologia da depressão. Psiqueweb.
  • RIBAS, Guilerme Carvalhal. Considerações sobre a evolução filogenética do sistema nervoso, o comportamento e a emergência da consciência. Revista Brasileira de Psiquiatria, 2006.

 

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Mayra Matuck é jornalista formada pela PUC, com Pós- Graduação em Jornalismo Científico pelo LABJOR (Lab. de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp) e Gestão da Inovação pela Fundação Instituto de Administração (FIA) – USP. Gosta de todo Universo da Ciência, Literatura, Pesquisa, Design e tudo o que possa agregar valor da forma menos obsoleta possível!
Site pessoal: www.umatelaindiscreta.digitalinretro.com

 

Licença Creative Commons
Amígdala: o ponto G do cérebro de Mayra Matuck Sarak está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.
Baseado no trabalho disponível em www.autopsiareview.org.
Podem estar disponíveis autorizações adicionais às concedidas no âmbito desta licença em http://autopsiareview.org/amigdala-o-ponto-g-do-cerebro/.

 

1 Comment
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  1. Excelente abordagem! Assunto muito interessante. Não sabia sobre amêndoas em meu cérebro!

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