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A Torre de Babel – Crônica
03 abr 2015

Colaboração

Cléa Magnani é uma paulistana e capricorniana de 67 anos, casada, mãe de três filhos e avó da Gabi e da Bia (seus tesouros!). Desde os primeiros contatos com a Escola, sua felicidade era receber da professora figuras de paisagens e escrever na lousa: COMPOSIÇÃO À VISTA DE UMA GRAVURA. Isso fazia sua imaginação voar, mesmo com exíguas "20 linhas" que a "Mestra" colocava como limite para a historieta com "começo, meio e fim"... A Vida de Esposa, Mãe, Dona de Casa e Empresária, (sem contar as tarefas de Cuidadora de todos os idosos da família), fez com que seu prazer em escrever ficasse para um segundo plano. Posteriormente, mesma vida ensinou que escrevendo dava para resolver seus problemas emocionais. Assim, ela escreve crônicas, contos, "causos" do cotidiano, histórias que ouviu, e até algumas biografias familiares.

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Imagem: adaptada do site Techguru

 Por Cléa Magnani

Crônica

Segundo os Dicionários, dialeto é um linguajar próprio de certas regiões de um país, que identifica indivíduos naturais “dali”.

Porém, em São Paulo – uma Megalópole cujas ruas são como veias e artérias -, circulam e vivem representantes de toda parte do Brasil e do mundo.  Situações em que somos colocados próximos de pessoas “conversando” tornam-se interessantes se prestarmos atenção às palavras que circundam nas ruas, nas filas, nos transportes coletivos etc.

Existem também hábitos em que as mãos estão ocupadas, e aí não tem jeito: mesmo dando a impressão de que estão falando sozinhos, com seus inseparáveis celulares enfiados nos bolsos ou com os micro-fones enfiados nos ouvidos… para responder, o cidadão tem de falar.

É aí que a nossa observação fica mais aguçada, pois sem ouvir a pergunta, só escutamos as respostas… E os assuntos são os mais variados: desde pequenos retalhos do cotidiano dessa massa humana até histórias desumanas, dramas e tragédias – depoimentos dignos de B.O., fofocas de arrepiar os cabelos, receitas de iguarias, regimes, medicações infalíveis, indicações de clínicas e médicos que são “UMA BÊNÇÂO!”, críticas ferrenhas aos governantes que “só roubam e não fazem nada além de aumentar os preços de tudo”, oportunidades de empregos ou notícias de demissões, negócios concretizados ou desfeitos…. Tem de tudo!

Uma das situações com a qual venho convivendo há dois anos, são as conversas entre os peões de uma grande construção que se ergueu como um gigante de 100m ou mais de altura, no terreno fronteiriço ao da minha casa, num “ex” pacato bairro, com o prosaico nome de Vila… À medida que erguiam os andares, a distância entre os interlocutores aumentava, e todos (que já conversavam muito alto – mesmo estando lado a lado) passaram a falar ainda mais alto para se comunicarem. 

A maioria veio da mesma região do país, e, talvez pela distância, talvez por divergência de vocbulário, ou, pela poluição sonora provocada pelos seus instrumentos de trabalho, os diálogos de cada dia (invariavelmente, das sete da manhã até às cinco da tarde, soam invariavelmente assim:

– Ô Zé!!!

– Quê!!!

– “Cê viu “…ram ram ram….”?

– Quê??

– “Cê viu “…ram ram ram….”?

– Sei não…

– Quê???

– Sei não… Tá … ram ram dos gom jam…..

– Quê??

– … Tá …ram ram dos gom jam…..

– I é??? Já rum…ram…lá das coi…….

– Quê????

– Já rum…ram…lá das coi…

– Pas dom..grim…ram..la 

– Quê???

– Pas dom..grim…ram..la 

– Háháháháhá!!! Carai!!!!!E é pras donguim  ram jan….!!

– Quê???

– E é pras donguim  ram jan….!!

– Ei!!! Otuntá? Taí??

– Quê???

– Otuntá? Taí??

– Vô tountá….

– Quê ???

– Vô tountá….  Ôôô Zééééé!!!!!!!!…………………

E assim dias e meses foram passando, a construção foi subindo, os diálogos ecoando meses a fio o dialeto incompreensível recheado de palavrões (dialeto universal…) pelo quarteirão outrora silencioso, que ostenta  agora a mais nova Torre de Babel do Bairro…

Cléa Magnani
São Paulo, SP
VIA: Autópsia Review

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Cléa Magnani é uma paulistana e capricorniana de 67 anos, casada, mãe de três filhos e avó da Gabi e da Bia (seus tesouros!). Desde os primeiros contatos com a Escola, sua felicidade era receber da professora figuras de paisagens e escrever na lousa: COMPOSIÇÃO À VISTA DE UMA GRAVURA. Isso fazia sua imaginação voar, mesmo com exíguas “20 linhas” que a “Mestra” colocava como limite para a historieta com “começo, meio e fim”… A Vida de Esposa, Mãe, Dona de Casa e Empresária, (sem contar as tarefas de Cuidadora de todos os idosos da família), fez com que seu prazer em escrever ficasse para um segundo plano. Posteriormente, mesma vida ensinou que escrevendo dava para resolver seus problemas emocionais. Assim, ela escreve crônicas, contos, “causos” do cotidiano, histórias que ouviu, e até algumas biografias familiares.

Licença Creative Commons
O trabalho A Torre de Babel do meu bairro de Cléa Magnani está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.
Baseado no trabalho disponível em www.autopsiareview.org.
Podem estar disponíveis autorizações adicionais às concedidas no âmbito desta licença em www.autopsiareview.org.

 

1 Comment
1 Comments
  1. Um tema bastante interessante sobre a comunicação, que é a relação primordial entre as pessoas, tendo características diferentes em cada região desse nosso imenso país. Esse fato já me chamou a atenção quando eu trabalhava numa instituição em que vinham pessoas de todos os estados, e falando com pessoas do sul, da região central ou do norte parecia que nos encontrávamos em universos diferentes. Desde a conversa entre pessoas mais simples até as mais intelectualizadas observamos diferenças na forma e no conteúdo da comunicação, mas não se pode negar que esse é o primeiro ato de relação e troca pessoal.

    Conheço vários textos da autora, que tem a capacidade de captar e expressar acontecimentos observados no simples cotidiano da vida, com acuidade de percepção e sensibilidade. Observo algo um pouco diferente no seu estilo, particularmente nesta crônica, que não consigo identificar, mas parabenizo pela escolha do tema e pela expressividade neste texto.

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