Montanha-russa e algodão-doce
19 fev 2012

Colaboração

Mayra Matuck é editora adjunta da revista. Jornalista formada pela PUC, com Especialização em Jornalismo Científico pelo LABJOR (Lab. de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp) e Gestão da Inovação pela Fundação Instituto de Administração (FIA) - USP. Gosta de todo Universo da Ciência, Literatura, Pesquisa, Design e tudo o que possa agregar valor da forma menos obsoleta possível!

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Um apanhado do século XX

Por Mayra Matuck

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o alto da montanha-russa é possível avistar diferentes pontos de vista a partir de diferentes planos da realidade. O ritmo dos trilhos não deixa a permanência em um único plano. Cemitério em vista. Cruzes brancas vistas do alto, em uma dimensão diferente. Em menos de 100 anos seremos vistos também. E os nossos feitos estarão sendo usados!

Cemitério! Num piscar de olhos, juntamente com o desenrolar da montanha-russa, somos envolvidos em  movimentos circulares que remetem ao funcionamento de máquinas da revolução industrial, iniciada no século XIX. Foi uma cena de fração de segundos. Século XX. Matemática abstrata. E=mc2. Máquinas complexas. Bombas. Bluuuúuuuummmm!

Estamos em descida. Frio na barriga… Bluuuuuúmmmmm! Ritmo outra vez! E o tempo de produção de um carro foi reduzido de 14 horas para 1h33min. Alex Anderson viveu de 1882 a 1919, e foi operário. Recebia $22.00 por semana e trabalhava por 12 horas diárias, incluindo sábados. Fazia pique-nique aos domingos. Nunca teve um Ford K como os que ajudava a produzir, e morreu de gripe espanhola. Não dá para ver o túmulo dele daqui.

Estamos subindo de novo! Gostozinho! Mas o carrinho parou! Estamos diante de um abismo! Fração mínima de segundos parados no ar. Entregues ao vento e à gravidade. Matemática abstrata. Despencaaaamooosss…

Vietnã. Um avô qualquer (muito simpático por sinal), que estava em um belo dia ensolarado curtindo a praia com os amigos. Ele era levantado para o alto. O alto! … Conheci o pedaço da batata da perna do filho dele. Mas podia não ser também do filho dele. Segundo Cristian Boltanski: “em uma guerra não se matam milhares de pessoas. Matam-se uns que adoram espaguete, outros que são gays, outros que namoram. Em uma guerra, acumulações de memórias são assassinadas”. Concordo com ele. 

As fontes de energia tornam-se cada vez mais potentes. Surgem novos meios de transporte, como transatlânticos, carros, caminhões, motos, trens expressos, aviões…, novos meios de comunicação como o rádio, o telégrafo, gramofones, fotogramas, fotografias, cinema… Ahhh, o cinema! Mais armamentos, conhecimento especializado e a conquista do globo terrestre.

Um referencial europeu para um ideal de civilização ou “Ordem e Progresso”? Um futuro de racionalidade e harmonia. Ritmo em velocidade. Queda vertiginosa. Oscilações e constatações. Ritmo que nos tira a referência espacial.

Cemitério. Novas formas de usar a eletricidade. Velocidade e usinas hidro e termelétricas. Petróleo e derivados para motores de combustão interna e veículos automotores. Novas técnicas de prospecção mineral. Siderúrgicas. Materiais de plástico. Segunda Guerra-Mundial e destruição em massa.

Guerra-Fria. Conflito entre mundos desenvolvidos. Ditaduras para o sub-mundo. Revolução micro-eletrônica e parques de diversão. Montanha-russa e algodão doce! Idealismo: mostrar o heroico de modo anônimo e simples, porém, crítico. 1970: a China tinha como principal atividade montar bicicletas. O livro de cabeceira era O Vermelho. 1985: 8238 “Joãos” trabalhando na Serra Pelada, aqui no Brasil. “Joãos” em busca do ouro, nunca encontrado para eles! Japão de 1957: japonesas operárias produziam televisões. Fotos artísticas em preto-e-branco foram tiradas dos pés descalços, sujos e de pele ressecada por Sebastião Salgado. Cemitério para o pé do dono desse pé que gostava de Coca-Cola. “Sempre Coca-Cola…!”

Efeitos especiais brilhantes. E mais uma cena de cemitério! Efeitos que exprimem uma mescla impactante de imagens, ideias, fatos, sonhos e sons (sempre nos trilhos…) Até a Praça da Paz Celestial em 1989 com tanques de bombardeio. Distorção de rostos mais a palavra PARANOIA.

Foto de um bebê fofinho. Cara de bravo. Bebê fofinho “indolente , mal-humorado e austero. Pouco dinheiro, poucos amigos, poucas mulheres. Nem cigarro, nem bebida. Bigode ralo.” Efeito desorientador, cegueira e irreflexão. Sociedade sem crítica e, consequentemente, sem identidade.

Século XX. Efeitos multiplicativos. Globalização. Transações entre Tóquio, Hong-Kong, Cingapura, Europa, Londres, Zurique, Frankfurt, Nova York, Chicago e Toronto. Sistemas políticos, parlamentos, tribunais e opinião pública. Redistribuições na saúde, educação, moradias, infra-estrutura, seguro social, lazer e cultura.

Tempo: passado, presente e futuro. Che, Gandhi, King e Lennon. Mulheres nos trilhos. Mulheres gostando de ficar nos trilhos. Casa, cozinha, filhos, marido e depressão. “We can do it!” and more… Channel, operárias, alemãs, russas, inglesas, japonesas, americanas, mais americanas. 1916: primeira clínica de controle da natalidade. Margareth Sanger; mulher que teve essa ideia foi acusada de obscenidade, presa e viveu de 1883 até 1966.

 

Woodstoock. Cemitério. “Há três tipos de déspotas: o eu tiraniza o corpo; o Príncipe. O que tiraniza a alma; Papa. O que tiraniza o corpo e a alma; o Povo”. Vertigem. Vertigem e Deus. Deus: criança pobre à espera dele.

Síndrome e tempo: reflexão sobre seus caminhos e descaminhos. Parou. Cabelos penteados pelo vento! Carrinho parado e pé no chão! Cemitério! Retrospectivas de sonhos e realidades, arte e guerras, vidas e mortes. Secular “Nós que aqui estamos, por vós esperamos” (um documentário para nossa cabeceira! Par ideal da nossa bíblia!). Mas antes, estrangulou o marido, ou a mulher, e foi ao cinema! (Ai o cinema)…

 

O documentário “Nós que aqui estamos, por vós esperamos” foi dirigido, produzido, e editado por Marcelo Masagão. Música: Win Mestens. Consultoria de história: Nicolau Sevcenko e José Eduardo Valadares. Bibliografia: “A corrida para o século XXI, no loop da Montanha-Russa”. 

Mayra Matuck 
São Paulo, SP
VIA: Autópsia Review

Mayra Matuck é editora do site e jornalista formada pela PUC, com Pós- Graduação em Jornalismo Científico pelo LABJOR (Lab. de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp) e Gestão da Inovação pela Fundação Instituto de Administração (FIA) – USP. Gosta de todo Universo da Ciência, Literatura, Pesquisa e Design, e tudo o que possa agregar valor da forma menos obsoleta possível! Site pessoal: www.umatelaindiscreta.digitalinretro.com   

 

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Montanha-russa e algodão-doce: um apanhado do século XX de Mayra Matuck Sarak está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.
Baseado no trabalho disponível emwww.autopsiareview.org.
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